Como é que isso é possível e de que forma esse preconceito se manifesta? + [aqui]
- Homofobia» Preconceito contra quem sente atração pelo próprio género, independentemente da orientação em concreto, e muitas vezes direcionada também contra quem não conforma às normas de género.
- Lesbofobia» Preconceito contra mulheres que gostam de mulheres, mais frequentemente contra lésbicas. Tende a ser cis-sexista (ex: "Mulheres nem sentem prazer", "Sexo sem um pénis nem é sexo", "É só para chamar a atenção dos homens"), implicar com a label (ex: "Lésbica é uma palavra feia") e reforçar estereótipos estúpidos (ex: "Se é para namorar mulher que parece homem, porquê que não namora com homem a sério?").
- Bifobia» Não implica com a atração pelo próprio género, mas com o facto de se gostar de mais do que um. Pode manifestar-se num nível de classe (ex: "Isso não existe", "É uma transição entre sexualidades", "É fase de indecisão"), nível individual (ex: "Esta pessoa não é realmente bi porque...") e nível estereotipado (ex: "Querem tudo", "Não ficarão satisfeitos só com um parceiro", "No fundo gosta de homens").
- Afobia» O implica tanto com os géneros em questão, é mais uma forma de invalidação enorme que pode manifestar-se só como arofobia (ex: "Arromânticos são incapazes de amar/robóticos/frios"), acefobia (ex: "Ainda é muito inocente", "Eu podia curar-te"), ou ambos (ex: "Um dia vais encontrar a pessoa certa").
Portanto, é possível uma pessoa gay ser lesbofóbica, bifóbica e afóbica, uma pessoa lésbica pode ser bifóbica e afóbica, e uma pessoa bi pode ser afóbica. Isso não é questionável e nem sequer é tão incomum quanto eu desejaria. Menos comum e também menos hierárquico são casos de, por exemplo, pessoas bissexuais ou assexuais que detém uma série de homofobia internalizada - não nego que há idiotas em todo o lado. Contudo, o mais comum mesmo é que seja a comunidade gay e lésbica a cometer atos de exclusão.
Hora da história: Quando (re)começou a luta por direitos da comunidade lgbt+, alguns grupinhos tiveram de ser *sacrificados*. Pessoas homossexuais foram quem mais teve conquistas, e isso implicou uma série de medidas: Exclusão de pessoas trans e tratando a questão da identidade de género como algo que não era do interesse da comunidade; Exclusão de bissexuais porque senão seria difícil espalhar a narrativa do "Born this way" e explicar às pessoas que gostar do próprio género não era uma escolha; Exclusão da comunidade queer, porque exigir ser aceite como um todo e sem policiamento de identidades deixaria a sociedade muito confusa, e porque é mais fácil aceitar uma família que só não é tradicional por causa dos géneros, do que aceitar uma família poliamorosa ou pessoal kinky;
Há ainda um conceito que só é atirado contra a cara de pessoas m-spec ou a-spec: privilégio hétero, isto é, o conceito de que a invisibilidade de pessoas bi+ e a+ as poupa de agressão física, logo, só pode ser um privilégio (hint: não é, porque vem a custo da nossa identidade e não nos poupa de agressões indiretas). Pessoas gays e lésbicas nunca serão acusadas desse termo, porque se considera que, se a homossexualidade é o oposto da heterossexualidade, então é "mais corajoso" assumir que se é gay/lésbica - apesar de a [estatística bi | estatística ace/aro+www] comprovar que os outros dois grupos sofrem com mais ansiedade e riscos - e estar num relacionamento do mesmo género implica que estejam fora do armário. Com pessoas m-spec e a-spec, o double-standard é tão irónico que se considera o contrário:
- Se pessoas multissexuais namorarem com alguém de um género diferente, são vistas como um casal hétero, logo é considerado que não sofrem nenhum preconceito (pois não podem sofrer homofobia e a sociedade desconhece os outros preconceitos). Se forem pessoas assexuais, é considerado o mesmo. O primeiro grupo é chamado de "bihet", e o segundo de "héteros que não gostam de sexo".
- Por outro lado, se pessoas multissexuais namorarem com alguém do próprio género, são consideradas um casal gay em que pelo menos uma das pessoas está "em cima do muro", isto é, ainda não teve coragem de sair do armário (o que encara a bissexualidade como um passo intermédio entre hétero e gay). Assexuais também são considerados que estão no armário, porque são "gays com medo de usar a palavra".
Já perceberam porquê que tanta gente fala de uma hierarquia?
Isso não invalida o facto de que todas as comunidades sofrem preconceito, e aliás, importa notar que há 3 grandes caraterísticas de todos os tipos de discriminação: discriminação lgbt+ não é exceção à regra: invalidação, hipersexualização, e apagamento. A autora fez um ótimo ponto em ilustrar como é que esses conceitos são aplicados aos 3 grupos que estou a considerar neste artigo:
Todos os grupos são vítima de uma coisa que se chama heterossexualidade compulsiva. Porquê? Porque pessoas gay/lésbicas não gostam do género oposto, pessoas bi+ não gostam só de um género, e pessoas assexuais não sentem atração da mesma forma. Isto, quando o que a sociedade quer é que se sinta todos os tipos de atração, por um único género, que tem de ser o género binário oposto. Isto é:
- 1» Há mesmo gays e lésbicas que excluem e discriminam bissexuais, e assim sucessivamente, como eu disse acima.
- 2» Pessoas bissexuais não sofrem só bifobia - sofrem bifobia E homofobia pelo menos em alguns casos, logo sofrem mais preconceito, porque isso vai somando. O mesmo é válido para assexuais: se eles sentirem atração romântica pelo próprio género, ou mesmo por mais de um género, podem para além de acefobia sofrer as outras opressões.
Para piorar a confusão, há quem tente a todo o custo fazer disto uma competição para se poder desresponsabilizar.
Aconteceu algo parecido quando foi legalizado o casamento do mesmo sexo: imensa gente disse que havia coisas mais importantes, como acabar com a fome em África. O que eu me pergunto é, será que essas pessoas estavam mesmo preocupadas com a causa, ou queriam apenas invalidar a conquista de pessoas lgbt+? Tende a ser o segundo o caso, e isso confirma-se ao ver que quem fez a critica segue a vida sem ajudar a causa em que supostamente acreditava - enquanto que, ironicamente, muita gente que advoca por exemplo pelos direitos lgbt+ também ajuda outras causas, como a dita fome em África.







