Ohayou ^^ Eu sei que prometi um post um pouco mais leve e que não se debruçasse sobre representatividade, mas só faz sentido postar aquilo que planifiquei quando tiver pronto um lay mais minimalista - que, aliás, me dará muito gosto fazer. Então, esta reflexão gigante é a resposta ao que eu mencionei no [post anterior], no excerto " Na verdade, eu vou fazer um post sobre isso no futuro, porque é um tema muiiito confuso, muito polémico, com TONELADAS de nuances e verdadeiramente importante para mim, mas spoiler sobre o que eu penso: deve-se privilegiar acima de tudo identidade."
- Será que eu podia nunca ter gostado/achado que gostava de pessoas que não são homens se nunca tivesse visto isso representado? Mais concretamente, da maneira tão específica e pouco... não é forçada, mas questionada talvez... que o foi em No.6?
- Será que eu poderia ter vivido e morrido acreditanto que era/sendo 100% mulher?
- Impor dado termo a quem não se identifica com ele;
- Roubar dado termo de quem se identifica com ele;
Ainda recentemente vi uma pessoa a apelar por definições abrangentes de géneros: [www]. Como assim? Definições inclusivas de todas as pessoas que partilhem pelo menos parte da experiência de dada pessoa cis: por exemplo, o termo "mulher" podia ser usado não só para mulheres cis, mas para pessoas designadas homem à nascença que se identificam como mulheres, pessoas designadas mulheres à nascença que se identificam com outro género mas foram socializadas como mulheres, ou são percepcionadas e tratadas como mulheres... Agora, para usar esse termo com uma definição tão abrangente, essa definição teria de estar explícita e ser do conhecimento geral de toda a gente que a ouvisse ser usada nesse sentido, caso contrário, está-se a colocar pessoas que não se identificam como mulheres numa caixa demasiado pequena para elas. Que é precisamente o oposto do que se pretende. O melhor mesmo seria ter algum termo que por si só denotasse que há várias pessoas, mulheres ou não, cujas experiências podem ser comums às de mulheres cis, sem que necessariamente sejam mulheres cis elas próprias. PWFE - Person with feminine experiences? Se quiserem ajudar esse termo a colar no tumblr, eu agradeço >.<
E já sei que muita gente acha um exagero discutir por palavras, mas dependendo da situação, as palavras podem literalmente levar à morte ou à salvação de alguém. Há pessoas que estão prestes a suicidar-se por se sentirem tão sozinhas, e saber que há um nome para aquilo que são, e pessoas que se sentem exatamente da mesma maneira, pode ser um raio de esperança - e mesmo sendo esse um caso extremo, está longe de ser incomum. Então não vamos assumir que a vida de toda a gente é um mar de rosas, nem que palavras são algo insignificante e indigno de discussão, pode ser?
Relativamente à questão 2, há duas grandes perspetivas tanto dentro da comunidade lgbt+ como fora desta: Uma, a dos essencialistas, diz que as pessoas nascem a gostar de quem gostam e a ser do género que são (o que em certas casos leva à procura de uma explicação biológica), enquanto que os apoiantes da teoria da construção social afirmam que o meio é que determina a orientação e género de alguém [www]. E eu não consigo perceber porquê que as pessoas entendem identidade de uma maneira tão limitada: é como dizer que gostar de certa cor OU é mesmo por gosto da pessoa OU isso é causado pela sociedade. Não faz sentido. Há estudos e estudos a mostrar que, em relação aos gostos, as sociedades tendem a ter preferências bastante alinhadas pois há certos padrões que são mais valorizados que outros, mas isso não impede que seres autónomos sejam mais complexos que isso e tenham gostos diferentes ou adicionais aos mainstream. Porquê que com identidades não pode ser a mesma coisa? Uma parte inerente da pessoa, mas não 100% independente das influências do meio? Não há até agora evidência nenhuma de que atração pelo próprio género, ou de que ser trans, tenha causas genéticas - "How could gayness take a single identifiable form in the brain when it takes such varied forms in people's lives?" [www] - e esperemos que tal nunca venha a ser descoberto, caso contrário, a narrativa que salvou a comunidade (
* A crise da SIDA (começou em 1980 e só foi melhorando a partir de 2000), juntamente com os Stonewall Riots, mereciam posts próprios de tal maneira foram marcos importantes - o primeiro um marco trágico, o segundo uma vitória (e aqui a tragédia veio depois da vitória). Mas para já contentem-se com estes links - eu adoro particularmente o que fala de como a atitude das lésbicas foi responsável por eliminar o fosso que havia entre a comunidade gay e lésbica, que era bem, beeeem distinta no passado:
Contudo, há vários membros a quem essa narrativa não se encaixa: em particular, pessoas cuja identidade é fluída, pessoas que têm curiosidade por procurar parceiros de diferentes géneros ou experimentar papéis de género distintos, ou que não se identificam com algo por muito que se enquadrem na definição mais mainstream. Se calhar há até mesmo pessoas que gostam de mais do que um género mas não se importam de passar a vida toda com parceiros sempre do mesmo género, não necessariamente porque género não lhes faz diferença, mas porque se sentem melhor afirmando certa parte de si, e nesse caso dá para dizer que elas estão a fazer uma escolha - mas estariam a escolher ser gays/trans/whatever, ou elas são bi/não-binárias/whatever-oposto-do-conjunto-anterior e apenas estão a escolher como se comportar ou querem ser vistas? E a identidade delas, consiste na definição do que sentem, ou na definição de como se comportam? Ou há algum senso de visão-própria interna separada de tudo o resto? Pessoalmente, concordo com [este artigo] que diz que o oposto da narrativa "I was born this way" NÃO é "I chose this way": Podemos escolher as nossas ações, não os nossos sentimentos. Contudo, não poderemos também escolher dar mais atenção a certos sentimentos do que a outros?
São imensas questões, mas em todo o caso, essas pessoas que fogem do "Born this way" acabam por ser completamente desfavorecidas por uma narrativa tão redutora, não sendo levadas a sério até por vários membros da comunidade lgbt+. Essas pessoas também costumam questionar porquê que importa se são "gays desde nascença" ou não - a experiência delas é mais válida se tal se confirmar? Porquê que haveria de ser, se isso não afeta a maneira como se sentem/vêm/identificam no presente? Uma pessoa só deve ser respeitada por ser algo se nunca mudar ao longo da vida? A resposta nem devia ser necessária - e recomendo [este artigo] [talvez também este] para explicar melhor porquê.
- Há raparigas que beijam outras raparigas mas, no coração delas, nunca se apercebem que há lá um sentimento que pode ser chamado de mais do que amizade.
- Há pessoas de todos os géneros que ganham sentimentos românticos por pessoas do mesmo género que elas mas, por não sentirem atração física, confundem isso com amizade, pois nunca ninguém lhes disse que nem sempre a orientação romântica e sexual de alguém são iguais.
- Há raparigas que sabem que gostam de mulheres, mas têm um namorado e se consideram hétero, tanto é que em alguns lugares há "festas de sexo lésbico para mulheres hétero" [www] e não conseguem sequer conceber que é possível gostar só de mulheres ou ter um relacionamento que não envolva um homem.
- Há rapazes que sabem que sentem algo por homens mas não sabem que isso basta para não se chamar de héteros, principalmente se gostam também de mulheres (que no entendimento deles e da maioria da comunidade lgbt+, faz com que não sejam gays), e hétero e gay são as únicas possibilidades que encaram como válidas.
- Há raparigas que se identificam como lésbicas porque apesar de reconhecerem que ainda poderiam gostar de homens, não conseguem conceber voltar a viver como dantes. Mas se calhar algumas reconhecem que, se nunca tivessem dado uma oportunidade a outra mulher, teriam vivido felizes como hetéros a vida toda.
- Há zonas mais rurais onde é comum homens terem relacionamentos com homens, toda a gente sabe disso, e não são minimamente considerados gays, até porque têm mulheres, são homens de família, e o único sentimento que desenvolvem pelos homens com que se relacionam é amizade - juro que vou encontrar o artigo que falava disso! E eles fazem questão de dizer que preferem homens bi porque gays são muito femininos (
é, toda a gente pode ter preconceitos e acreditar em estereótipos). - Há imensos homens que se intitulam hétero que vêm pornografia gay, o que por si só não quer dizer nada, mas muitos deles realmente ficam excitados com isso.
- Há pessoas m-spec que não têm um mínimo de preferência, e que não se apercebem de que gostam de mais do que um género. Notar a existência de algo (ter preferência) é fácil, mas como é que se nota algo que não existe? Ou seja, como é que se apercebem que gostam de outros géneros, se sempre ficaram satisfeitas que chegue com o facto de todas as pessoas com quem se relacionaram (ou simplesmente gostaram) terem sido do mesmo género?
- Há pessoas genderfluid que às vezes ainda se questionam sobre a possibilidade de não serem cis, mas depois voltam a identificar-se com o género que lhes foi atribuído (ou se preferirmos a narrativa contrária, com o género binário oposto, se forem trans), e concluem que estavam confusas ou foi uma fase. De certa forma, foi mesmo uma fase, mas o termo genderfluid continuaria a aplicar-se se olhassemos para a vida delas como um todo.
- Há pessoas que gostam de mais do que um género, sabem disso, e optam por se relacionar com pessoas do género binário oposto ao que lhes foi atribuído por segurança ou conforto**
- Há pessoas que se identificam como bi ou assim por um tempo, e depois concluem que foi uma fase, e que essa identidade não se adequa, pois são hétero. Também há pessoas que gostam de "experimentar" antes de saber o que são.
- Há pessoas que podiam jurar que são hétero ou cis durante grande parte da vida, pois realmente nunca sentiram nada que se assemelhasse a sentimentos pelo próprio género ou identificação com géneros diferentes dos atribuídos, e um dia - algumas dessas pessoas têm mais de 40 anos! - descobrem que a maneira como se sentem não é assim tão limitada (OBS: limitada numericamente, não estou a tentar rebaixar nenhuma identidade).
- Há pessoas que acham que são gay ou lésbicas até certo ponto, e que até tiveram de lutar bastante por aceitação, e um dia descobrem que conseguem desenvolver sentimentos por pessoas de géneros diferentes do seu. Apenas nunca tinha acontecido até aquele ponto, e possivelmente há um diferencial no sentimento que fez com que não notassem logo.
**Embora nem toda a gente se sinta invisibilizada em situações assim, acho triste que algumas pessoas não possam ser autênticas por medo, e mais triste ainda que reações de defesa sejam tão mal encaradas pela comunidade lgbt+ num geral, que trata essas pessoas como traidores. Quase tão triste como pessoas m-spec (bi, pan...) que só se relacionam com pessoas do próprio género porque concordam que de outro modo estariam a ser privilegiadas e a trair a comunidade. Como se invisibilidade fosse um privilégio, e como se gostar de mais do que um género fosse mais aceite (até é discutível se não será menos, mas [aqui] o meu post sobre "Olimpíadas da opressão").
Considerações finais para ninguém sair daqui a achar que eu disse coisas que não disse:
- Nada neste post implica que "toda a gente é um bocado lgbt+". Nem que pessoas gay ou trans sejam "um bocado bi" ou "um bocado cis/não-binárias/...".
- De maneira nenhuma estou a implicar que todas as pessoas monossexuais (hétero, gays ou lésbicas) têm potencial para gostar de mais do que um género, ou já gostam e ignoram certos géneros de que gostam. O post apenas mencionou casos assim por serem esquecidos, mas há quem seja totalmente monossexual tanto por definição como por identificação.
- Eu não estou a dizer que é aceitável chamar de X termo a alguém que não se identifica com ele - bem pelo contrário, fiz questão de dizer que identificação é mais importante.
- Eu nem disse que a biologia é determinativa, nem que tem influência zero na identidade de uma pessoa. O mesmo para o meio e para a maneira como alguém é socializado. Tudo me parecem fatores influentes. A verdade? Provavelmente é mais complexa, não mais simples.
- Eu não estou a dizer que a narrativa do "born this way" não possa ser verdade para algumas pessoas. Estou a dizer que não é absoluta, e que não devia ser uma condição para respeitar, e validar alguém.
Créditos pela arte:» Kaenith: Charlie Weasley as Aromantic Asexual [www]
» I love broccoli: Some nonbinary awareness pictures [www]
» Drawing the line (provavelmente): My sexual preference is yeah/nope [www | www]
» Bi the way: Capa [www]
» Jess Scultz: Life outside the binary [www]
» Kirstendraws: Bisexualitea [www]











