Figuras históricas lgbt+


Eeeeeee eu já não postava há imenso tempo. Que desculpa vou usar? Faculdade. Por outro lado, tenho algumas novidades que irei mencionar no final do post, apenas quero aproveitar a intro para falar do tema do post. Há uma série de figuras históricas (potencialmente) lgbt+ que normalmente, quando são mencionadas, têm essa parte da sua vida apagadas. Há razões para isso - algumas bastante razoáveis, como o facto de nem sempre dar para ter a certeza - mas não são mais válidas do que as razões pelas quais se devia partilhar essa informação. Então eu quero apresentar os argumentos e depois passar aos nomes - e acreditem que alguns vos vão deixar espantades.

Comecemos com um vídeo:
Ring de luta:
Como disse, há razões que fazem sentido para não se anunciar alguém como lgbt+, mas não são mais válidas do que aquelas pelas quais tal deve ser feito, e eu quero apresentar ambos os lados da moeda.

Nem sempre dá para saber se alguma figura é lgbt+: Normalmente a pesquisa é feita, primeiro, em diários e autobiografias, movendo-se para registos criminais e tal. Quando alguma pessoa é "suspeita" como lgbt+, é porque de facto algumas passagens indiciam sentimentos ou iniciativas românticas por alguém do próprio género, e sim estas encontram-se. Agora, há várias questões em torno dessas passagens:
  • 1) Até que ponto algo que aconteceu e levou à criminalização de uma pessoa pode ser considerado algo que a define? Por exemplo, um homem que tenha sido condenado por sodomia, se calhar só se tendo envolvido com outro homem uma única vez, será gay ou bi?
  • 2) Será correto impingir a alguém uma label que a própria pessoa nunca aplicou a si própria? Imaginemos uma mulher que afirma gostar de mulheres, querer beijar mulheres e blá blá. Nem uma vez nos seus registos diz explicitamente que é isto ou aquilo. Deverá ser classificada como lésbica ou bi?
  • 3) Pode-se tomar a ausência de negação como uma confirmação? Por exemplo, toda a gente dizia que X pessoa era gay e a pessoa, sabendo disso, nunca negou. Deve-se deduzir que a confirmação está implícita?
  • 4) Há registos que estão abertos a interpretação. Se uma pessoa com um corpo considerado feminino, no passado, se vestiu a vida toda de forma masculina, foi tratada como um homem e tudo o mais, seria um homem trans, ou seria uma mulher disfarçada para se poder safar melhor na vida?
Para todas essas questões, a resposta prende-se com a maneira como olhamos para o que é ser lgbt+: pode ser uma definição, ou pode ser uma identidade - ou pode ser ambas as coisas, mas não o é para toda a gente, daí haver tanta complicação. Na verdade, eu vou fazer um post sobre isso no futuro, porque é um tema muiiito confuso, muito polémico, com TONELADAS de nuances e verdadeiramente importante para mim, mas spoiler sobre o que eu penso: deve-se privilegiar acima de tudo identidade. Isto dito, definições são uma ferramenta preciosa e que podem empoderar imensa gente do presente, então - voltando ao tema do post - mesmo que não se tenha a certeza de que dada pessoa foi lgbt+, deve-se pelo menos mencionar a possibilidade, a partir do momento em que esta fica clara. Porquê? Porque saber que é POSSÍVEL ser-se lgbt+, saber que POSSIVELMENTE já houve alguém como nós, em particular que pessoas como nós podem desempenhar um papel relevante na sociedade, pode ser significativo para fazer alguém auto-conhecer-se ou auto-aceitar-se. Muitas pessoas - principalmente, quem pertence a várias maiorias sociais - têm dificuldade a compreender isso, porque se vêm rodeadas de imagens de pessoas iguais a si em todo o tipo de papéis. Não estou a culpá-las, mas seria bom terem um bocado mais de empatia e aprender a colocar-se na posição de alguém que tende a ser um pouco mais alienado pela nossa sociedade. Hahaha, quem é que quero enganar, vocês sabem como eu valorizo representatividade.

Deixem-me clarificar: Realmente não há como saber se uma pessoa que já morreu era ou deixava de ser alguma coisa, muito menos saber se ficaria contente ao ser classificada de acordo com a terminologia atual. Mas nos casos em que as pessoas insistem que houve lgbt-erasure, normalmente não dá para saber também se a pessoa foi hétero ou cis. Então, porquê não dizer nada? Porque não considerar as duas possibilidades igualmente válidas? Algumas pessoas argumentarão que não dizer nada é a melhor maneira de se ser neutro, mas embora eu até acredite que isso possa ser verdade daqui por uns anos, na sociedade atual é a mais pura mentira: em caso de omissão, toda a gente é tomado como hétero e cis. Daí a problemática toda sobre invisibilidade. 


Vale ainda lembrar que há casos de pessoas que afirmavam ter certas identidades, e mesmo assim estas eram ocultadas ou alteradas de modo a agradar a maioria da sociedade (menções específicas na secção seguinte). 

Também é um bocado tricky usar a ausência de certas labels como prova de que alguém não era algo, quando a pessoa viveu numa época em que imensos dos termos atuais não existiam. Às vezes, mesmo não estando lá o termo, está a definição exata - custa assim tanto dizer que provavelmente a pessoa se consideraria X pelos padrões atuais? Agora, se a pessoa usar qualquer label que seja, mesmo que diferente das atuais, por favor mencionem-nas também. 

O único argumento para desmerecer que certa figura tenha sido lgbt+ que eu não aceito minimamente é quando desmerecem certas passagens como "Isso não era homossexualidade, era só um ato de luxúria na época" ou "Elas eram apenas grandes amigas, beijos entre mulheres não querem dizer nada". Irrita-me, porque mesmo hoje em dia só não fazem igual porque nós não deixamos, e tentar reduzir sentimentos de amor apenas a amizade é algo mesmo usual e desvalidador.

Até mesmo a maneira como os historiadores desconhecem certas culturas ou as tentam interpretar segundo os ideais da nossa sociedade levam a muitos erros. Por exemplo, no Egipto pessoas trans eram reconhecidas e enterradas de acordo com o seu verdadeiro género [www, comentário 18], mas ainda há historiadores que insistem que apenas foram mal enterradas. Tipo, wtf?? (Também pode interessar: [www]).


As figuras:
Anne frank» Eu só ouvi falar disso recentemente, em parte porque este facto foi um choque para imensa gente quando descoberto - algumas pessoas entraram em negação, outras ficaram chocadas pelas passagens que tinham sido cortadas em certas edições. De que falo? De alguns excertos escondidos do diário dela até recentemente, que deixam bem claro que ela gostava de mulheres, e que chegou mesmo a beijar pelo menos uma. Aliás, uma das coisas que pelos vistos ela mais mencionava eram comentários em relação ao corpo das pessoas ou à atração que sentia, e também fazia comentários bem secos que espantaram as pessoas que tentaram glorificá-la como uma rapariga inocente. Aqui estão algumas passagens de interesse: [www www] OBS: Para quem não sabe, Anne Frank foi uma rapariga alemã de origem judaica, que morreu no Holocausto e cujo único sobrevivente da família dela, o pai, publicou o diário que ela conseguiu salvar. Sendo um relato em primeira pessoa e bastante humano do que se passava na época. 

William Shakespeare» Há indícios de que ele tinha tanto interesse em mulheres como em homens. A ironia é que, como sempre, as pessoas não duvidam de que ele gostava de mulheres por conta de várias interações que teve com elas e de poemas que lhes escreveu, mas poemas escritos para homens são desmerecidos. Um soneto de amor extremamente famoso, "Shall I compare thee to a summer day?", foi escrito por ele para um homem - juntamente com outros 125 poemas dirigidos a "um jovem". Isto dito, os poemas que escrevia sobre mulheres eram de natureza mais sexual, então se fossemos a aplicar labels atuais, talvez ele fosse heterossexual birromântico, ou tivesse ainda assim preferência por mulheres. Mas daí a negar que ele gostava de homens vai uma grande distância, em particular quando as pessoas são confrontadas com informação como [esta]. Haha, pensavam que eram só 125 poemas? ;)

Oscar Wilde» Encontrei recentemente [um link] que demonstra bastante bem porquê que o autor de "O Retrato de Dorian Grey" é um ícone para a comunidade: por, frente a acusações de sodomia por parte do pai do seu jovem amante (Douglas), ele não as negar e aceitar ir preso - isto pouco depois de ter atingido o ápice da sua carreira, abdicando de toda a qualidade de vida. Ele podia ter conseguido escapar, mas quando o júri perguntou o que significava a frase "the love that dare not speak its name", Wilde deu a resposta mais estrondosa que podia, dizendo que o amor entre homens era uma das mais fortes formas de afeição e que era mal compreendido. As obras dele são bastante conhecidas. Oh, e não podia deixar escapar esta curiosidade preciosa sobre a sobrinha dele ;) [www]

Sappho» Foi uma poetisa e parte dos "9 poetas líricos do período arcaico". Nasceu na ilha de Lesbos (630 a.C) e os pais eram aristocratas ligados à política. Relacionava-se tanto com homens como com mulheres, embora muita gente a classifique como lésbica, sendo que a palavra lésbica provém precisamente da ilha onde ela nasceu (embora nem sempre a palavra lésbica tenha excluído mulheres que gostam também ocasionalmente de homens). Devido às suas opiniões, foi exilada para Sicília ainda jovem, retornando 5 anos depois com uma filha, tornando-se bastante importante em Militene e fundando uma escola para mulheres onde ensinava todo o tipo de habilidades: arte, beleza, atividades físicas, etc... Safo é extremamente conhecida por ter criado símbolos representativos do amor e do erotismo entre mulheres. Teve alguns dos seus poemas alterados para parecer que faziam referência a homens, havendo censura forte na idade média, provavelmente levando à perda de grande parte do trabalho de Sappho. Vale a leitura: [www]

Leonardo da Vinci» Aiiii eu detesto como a maioria da polémica em torno de Da Vinci era sobre se ele era um "homossexual praticante" xD Então, de vocês não conhecem da Vinci, não sabem o que são génios. Ele viveu na época renascentista e era exatamente o que se considerava o homem perfeito, devido ao número de habilidades que tinha - sendo o melhor dos melhores em todas elas (ok, um dia tenho de postar fotos da exposição que fui ver nas férias passadas). A série "Demónios de Da Vinci" capta essa genialidade de maneira espetacular (eu ainda não resenhei, mas é a minha série favorita até agora)... contudo, há outra coisa que capta razoavelmente bem: a muito, muito provável atração dele por homens. Embora a série o interprete como bissexual, e na realidade haja poucas demonstrações de que ele tenha tido interesse em mulheres, algo que explica o facto de ele nunca ter casado e ter sido celibatário até, escondendo que gostava de homens após ser acusado de sodomia. Enfim, o artigo da tia wiki é bom que chegue, embora eu odeio alguns dos termos usados: [www]

John Lennon» Embora eu não conheça nada sobre os Beatles, sim, é de um dos seus membros que estou a falar, aquele que ficou conhecido pela música "Imagine" - cuja letra, aliás, se adequa mais ainda sabendo que ele era bi. Antes de tudo, ele tinha algumas atitudes políticas bem fortes - por exemplo, devolveu a medalha de Membro do Império Britânico à Rainha Isabel II para protestar contra o apoio à guerra do Vietnam, lutava pela paz, pelos direitos das mulheres... Basicamente, pelo que Ono (a mulher dele) [revelou] sobre as suas conversas, ele admitia que embora nunca tivesse feito sexo com homens, não se teria importado, se fosse com um homem bonito - por dentro e por fóra. Basicamente, ele só não encontrou nenhum ao nível dele ;) Aliás, a Ono também é uma ativista incrível - sim, ainda esta viva.

Eleanor Roosevelt» Política, diplomata e ativista. Lutou por direitos feministas, raciais e de refugiados, entre outros, e frequentemente aparecia em campanhas políticas no lugar do marido, que tendo adquirido problemas nas pernas, nem sempre o podia fazer. Também suportava mais os  "direitos gays" do que seria esperado antes dos Stonewall riots, tinha uma forte amizade com uma repórter lésbica (que apelidava de "Hick") e muita gente afirma que ela era uma lésbica no armário. Isto dito, não é assim tão simples dizer, e ela parecia dar valor ao marido e casamento, embora também parecesse nutrir certos sentimentos e intimidade por Hick - a correspondência entre elas denota bem ambas as situações. É um daqueles casos em que é mesmo difícil dizer, embora pelos termos atuais eu provavelmente a fosse considerar bi - ei, elas escreviam sobre beijar-se na boca! - e que levava os relacionamentos de uma maneira relativamente comum a mulheres bi na época. Mais? [www www]

Frida Kahlo» Uma pintora mexicana extremamente famosa, um ícone feminista e uma grande guerreira. Ela contraiu polio, levando a uma certa paralisia que fez o seu pai incentivá-la a praticar desporto numa tentativa de recuperação, apesar de mais tarde um acidente de camioneta ter anulado esses esforços e levado a dores que a perseguiram a vida toda. Ela começou a pintar quando decidiu que o hospital não estava a ajudar muito, preferindo recuperar em casa. Mudou o ano de nascimento para 1910, para o poder partilhar com o ano em que começou a revolução mexicana. As suas primeiras experiências com mulheres foram um bocado traumáticas, pois foram com mulheres mais velhas que tomaram vantagem dela, Casou com Diego Rivera (que era bastante mais velho que ela), embora ambos tivessem outros relacionamentos e se tenham divorciado e voltado a casar várias vezes, e Frida consegue ser tanto um ícone hétero como um ícone gay - pelo menos, na cabeça das pessoas, que infelizmente parecem ter dificuldade a sequer considerar a possibilidade de ela ser bi.  Mesmo o marido dela, embora tivesse ciúmes dos seus relacionamentos com outros homens, não via problema que ela se relacionasse com outras mulheres, algo que reflete como a sexualidade entre mulheres ainda é invisibilizada e desmerecida na nossa sociedade.  Não se dava com relacionamentos monogâmicos, desde a adolescência. Fazia crossdressing, era independente e não seguia as normas sociais. As suas pinturas refletiam as suas experiências, como as dores que acompanhavam a sua deficiência, o facto de isso não anular que ela era uma pessoa sexual, o seu amor por mulheres... [www www]

Podia ter trazido exemplos mais claros ainda de pessoas lgbt+, mas optei por trazer figuras que estão atadas à comunidade em graus e maneiras diferentes. Dá para verem mais nesta pesquisa: www

Novidades:
Ora bem, eu finalmente acabei de ler a saga Mistborn, e o autor é realmente incrível. Eu ainda não sei como é que vou sobreviver sem as personagens, e a Vin e o Elend são de facto um casal hétero que respeito ;) Mas o mais maravilhoso de tudo é que  - já que não consegui contagiar nenhum sapinho a ler, e mesmo a Hina-clone não conseguiu arrancar com um volume inicial tão grande - contagiei alguns amigos meus, e o meu ex-namorado e melhor amigo Bruno (de quem já falei várias vezes) também está LOUCO com esta coleção e já está a começar o ultimo volume ^^ Adoro as personagens, adoro o mundo, adoro o sistema de magia, adoro as cenas de ação, adoro os plot twists!... Ter terminado esta saga também me motivou a reler a Roda do Tempo, isto é, a reler os 4 primeiros volumes que tinha lido aos 10 anos - nunca acabei a coleção porque na altura a tradução portuguesa foi interrompida, e não sabia inglês, mas agora que sei, tenho de recordar os primeiros dos 14 volumes.  Aliás, para terem uma noção de como Brandon Sanderson é competente, ele foi escolhido pelo autor  original da Roda do Tempo, Robert Jordan, para concluir a coleção por ele quando morreu.

Tenho tido uma ou outra crise existencial - uma das mais significativas relaciona-se com a minha multiplicidade de identidades lgbt+, e a outra com o facto de não ter tido grande tempo para ser criativa - mas no fundo está tudo bem e apenas me sinto desesperada por férias. O período também é responsável por esses dilemas.

Não sei se foram esses conflitos internos ou não que me motivaram a mudar o nome do blog, mas agora é Caixa de Sapinhos ^^ Sinto que assim me consigo manter mais fiel ao Forever Sapo, até porque quero recuperar algumas das temáticas de lá ~acreditem ou não, o próximo post não terá nada a ver com representatividade~ e posso continuar a chamar-vos sapinhos. Caixa de surpresas também era um nome demasiado vulgar, e desadequado, já que os assuntos dos meus posts se estavam a tornar extremamente previsíveis.

Era isso. Au revoir!
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