Até que ponto uma identidade sem nome existe?


Ohayou ^^ Eu sei que prometi um post um pouco mais leve e que não se debruçasse sobre representatividade, mas só faz sentido postar aquilo que planifiquei quando tiver pronto um lay mais minimalista - que, aliás, me dará muito gosto fazer. Então, esta reflexão gigante é a resposta ao que eu mencionei no [post anterior], no excerto " Na verdade, eu vou fazer um post sobre isso no futuro, porque é um tema muiiito confuso, muito polémico, com TONELADAS de nuances e verdadeiramente importante para mim, mas spoiler sobre o que eu penso: deve-se privilegiar acima de tudo identidade."

Portanto, fica aviso: Se alguém caiu aqui à procura de info sobre lgbt+ e não sabe nem algumas definições básicas, não recomendaria este post. Tenho guias mais úteis neste tumblr: [www]. O post irá refletir sobre como as pessoas não reconhecem a existência de algo até esse algo ser nomeado, e relacionar isso com identidades lgbt+, deitando lenha na fogueira de duas discussões: 1) será que uma pessoa é X se não se identificar com esse X, mesmo encaixando na definição usual? 2) identidades lgbt+ serão algo determinado pela biologia ou pelo meio? 

Que fiquei claro que eu vou essencialmente reclamar da maneira como a maioria das pessoas encara ambas as questões a preto e branco e acha que provar que uma causa se verifica anula a influência de outras causas. Se procuram A VERDADE, não acho que isso exista. Não quando se está a falar de pessoas. Mas sinceramente, acho que este post se aproxima de uma generalização bastante provável, pelo menos, mais do que muitos artigos que falam destes temas com grandes certezas. Preparem-se para ficar com o cérebro derretido.


Vamos contar um pouco da minha experiência com labels: eu nunca me tinha identificado como bi, e nunca gostei de uma rapariga até aos 16 anos. Eu sou daquelas pessoas que, se nunca tivesse visto um relacionamento queer/lgbt+ ser representado com naturalidade (em No.6 » resenha [aqui]), provavelmente nunca repararia que isso é uma possibilidade real. Aliás, mais do que isso - não é só a naturalidade, é mais o facto de aquelas personagens em particular parecerem não achar género algo relevante, não questionarem a própria sexualidade nem fazerem drama. Só quando vi a palavra bi DEPOIS de No.6 é que sentia que ressoava comigo, mas mais do que a palavra, era o sentimento de que não havia diferença entre géneros. Se calhar porque, antes disso, a única vez em que eu tinha ouvido a palavra tinha sido no 5º ano, quando colegas meus perguntaram a gozar se eu sabia o que eram pessoas bissexuais, e embora eu creia ter respondido algo minimamente acertado, foi por sorte pura, e sabia pelos risinhos que ser isso era algo mau (na cabeça deles). A primeira vez que ouvi a menção à possibilidade de gostar de mais do que um género foi quando a minha mãe estava a falar de uma poetisa de que gostava muito, Florbela Espanca, acrescentando o comentário de que "mas ela era muito maluquinha, ia para a cama com gajos e com gajas...". Com género, ainda me demorei mais a aperceber da minha identidade - ou melhor, de parte dela. Eu tenho uma grande conexão com o género mulher, que é o que me foi atribuido à nascença, e sempre tive um nome para isso. Contudo, agora eu identifico-me parcialmente como não-binária, e apesar de ainda me dar bem com pronomes femininos e tal, noto uma parte da minha identidade que não notava antes de aprender sobre as milhentas identidades não-binárias que há - porque é um género muito específico. Neste momento, a label de que mais gosto é demiflux, embora não sinta a mesma necessidade de colocar uma label ao meu género que sinto em relação à minha sexualidade.

OBS: Eu sinto que também estou um nadinha no espectro assexual e poliamoroso. Às vezes imagino que se estivesse num jogo, seria uma espécie de final boss, mas daqueles que, apesar de terem muitas habilidades e parecerem indestrutíveis, são fáceis de derrotar por serem tão fracos em todas elas :p 

Como este post não seria nada sem dilemas, este video» www «fez-me, porém, relembrar algumas das questões que eu tenho sempre colocado, principalmente quando vejo a narrativa do "born this way":
  • Será que eu podia nunca ter gostado/achado que gostava de pessoas que não são homens se nunca tivesse visto isso representado? Mais concretamente, da maneira tão específica e pouco... não  é forçada, mas questionada talvez... que o foi em No.6?
  • Será que eu poderia ter vivido e morrido acreditanto que era/sendo 100% mulher?
Para mim, a resposta é sinceramente sim. Eu poderia ter vivido blissfully unaware dessas partes de mim, mesmo que ocasionalmente me apercebesse de que faltava algo, falta essa que esqueceria rapidamente. Isso está loooooonge de ser verdade para imensas pessoas, though, e embora não dâ para generalizar a partir da minha experiência, também não é menos válida nem é tão incomum que deva ser desprezada. 

Primeiro, um esclarecimento: Acreditar que se é algo, e sê-lo realmente, são coisas diferentes. Mas para mim, a identidade de alguém é o que mais define o que a pessoa é. Então se, por exemplo, eu me identificasse toda a vida como exclusivamente mulher, acredito que era isso que seria. Daí eu ter usado "/" atrás, apesar de - e isto é importante - muitas pessoas serem, por exemplo, gays sem saber num sentido diferente de identidade: pois elas já reconhecem o sentimento e não é algo que ignoram, só não sabem que o nome se aplica a elas. Sim, há (para este caso) homens que gostam de homens exclusivamente e não se vêm como gays, e em parte eu culpo a maneira como a sociedade trata minorias como se fossem o outro: algo distante, algo que não faz parte da nossa realidade. Às vezes isso complica a vida de quem é algo, pois sendo parte de uma sociedade que cria uma barreira entre o "nós" e o "eles", pode demorar a perceber que o nosso "nós" é diferente do "nós" dos outros. Eu decididamente tive um hard time a mudar as palavras que usava: mesmo depois de perceber que era bi continuava a tratar "as pessoas lgbt+" como um grupo do qual não fazia parte, enquanto que agora é impossível para mim não dizer "nós" quando me refiro à comunidade lgbt+ ^~^

Dantes, na cultura ocidental e em várias outras não se reconhecia a cor azul nem sequer com ela à frente [www]. Razão? Não tinha um nome. O mar, o céu ou outras coisas que são tipicamente azuis eram classificadas como verde, roxo, cinzento ou outras cores... e o azul estava definitivamente lá, mas podemos dizer que eram azuis quando azul é só o conceito que criamos há relativamente pouco tempo? Podemos dizer que o mar era azul para as pessoas que o viam numa época em que o termo "azul" não existia, apesar de elas verem aquilo que hoje denominamos de azul? 

O meu ponto é que definições, embora sejam algo que eu adoro para organizar as coisas na minha cabeça, deixam de ser úteis quando se sobrepõe ao entendimento das pessoas sobre dado conceito. Se se afirma que a palavra A significa B, mas toda a gente a aplica como se também significasse C, porquê que não há de ser C também? Em especial, se essa palavra for um termo que define um grupo de pessoas, e as próprias pessoas englobadas por A disserem que também são C. Ok, ficou confuso... xD Não podemos limitar demasiado definições, muito menos no que toca a identidades, pois isso arrisca-se a:
  • Impor dado termo a quem não se identifica com ele;
  • Roubar dado termo de quem se identifica com ele;

Ainda recentemente vi uma pessoa a apelar por definições abrangentes de géneros: [www]. Como assim? Definições inclusivas de todas as pessoas que partilhem pelo menos parte da experiência de dada pessoa cis: por exemplo, o termo "mulher" podia ser usado não só para mulheres cis, mas para pessoas designadas homem à nascença que se identificam como mulheres, pessoas designadas mulheres à nascença que se identificam com outro género mas foram socializadas como mulheres, ou são percepcionadas e tratadas como mulheres... Agora, para usar esse termo com uma definição tão abrangente, essa definição teria de estar explícita e ser do conhecimento geral de toda a gente que a ouvisse ser usada nesse sentido, caso contrário, está-se a colocar pessoas que não se identificam como mulheres numa caixa demasiado pequena para elas. Que é precisamente o oposto do que se pretende. O melhor mesmo seria ter algum termo que por si só denotasse que há várias pessoas, mulheres ou não, cujas experiências podem ser comums às de mulheres cis, sem que necessariamente sejam mulheres cis elas próprias. PWFE - Person with feminine experiences? Se quiserem ajudar esse termo a colar no tumblr, eu agradeço >.<

E já sei que muita gente acha um exagero discutir por palavras, mas dependendo da situação, as palavras podem literalmente levar à morte ou à salvação de alguém. Há pessoas que estão prestes a suicidar-se por se sentirem tão sozinhas, e saber que há um nome para aquilo que são, e pessoas que se sentem exatamente da mesma maneira, pode ser um raio de esperança - e mesmo sendo esse um caso extremo, está longe de ser incomum. Então não vamos assumir que a vida de toda a gente é um mar de rosas, nem que palavras são algo insignificante e indigno de discussão, pode ser?

Relativamente à questão 2, há duas grandes perspetivas tanto dentro da comunidade lgbt+ como fora desta: Uma, a dos essencialistas, diz que as pessoas nascem a gostar de quem gostam e a ser do género que são (o que em certas casos leva à procura de uma explicação biológica), enquanto que os apoiantes da teoria da construção social afirmam que o meio é que determina a orientação e género de alguém [www]. E eu não consigo perceber porquê que as pessoas entendem identidade de uma maneira tão limitada: é como dizer que gostar de certa cor OU é mesmo por gosto da pessoa OU isso é causado pela sociedade. Não faz sentido. Há estudos e estudos a mostrar que, em relação aos gostos, as sociedades tendem a ter preferências bastante alinhadas pois há certos padrões que são mais valorizados que outros, mas isso não impede que seres autónomos sejam mais complexos que isso e tenham gostos diferentes ou adicionais aos mainstream. Porquê que com identidades não pode ser a mesma coisa? Uma parte inerente da pessoa, mas não 100% independente das influências do meio? Não há até agora evidência nenhuma de que atração pelo próprio género, ou de que ser trans, tenha causas genéticas - "How could gayness take a single identifiable form in the brain when it takes such varied forms in people's lives?" [www] - e esperemos que tal nunca venha a ser descoberto, caso contrário, a narrativa que salvou a comunidade (ver parágrafo seguinte) será a mesma a condená-la, já que sem dúvida seriam feitas experiências para tentar "curar" pessoas lgbt+. 

A comunidade lgbt+ ocidental, de maneira geral, insiste que as pessoas já nascem com certas caraterísticas, mas essa narrativa surgiu bastante como forma de auto-defesa, para se argumentar que, se não nos iam aceitar, mais valia matar-nos logo, porque não podiamos mudar. Sexualidade e género não podem ser aprendidos, nem são uma escolha, nem são algo que podia ser mudado/influenciado - essa noção é quase um grito de guerra, no caso, um que foi a base da conquista de muitos direitos. Realmente, não se pode forçar alguém a não ser da orientação/género que é - aliás, conversation therapy está aí para provar que não funciona. Eeeeee decididamente, muitas pessoas lgbt+ notam "sinais" da sua identidade antes de terem a capacidade de a afirmar ou nomear, nem que seja só para si próprias. Não dá para negar isso, e mesmo quem apresenta estatísticas como [esta | esta] que denotam que hoje em dia se encontram gerações mais novas em vários lugares onde a maioria das pessoas não se identifica nem como "100% gay ou hétero, homem ou mulher" e argumenta que isso só prova que está a ficar modinha, está a ignorar o facto de que 1) é um bocado difícil encontrar pessoas lgbt+ mais velhas porque bem mais de metade morreu durante a crise da SIDA* 2) não há mais pessoas lgbt+ hoje em dia, o que há é mais pessoas a assumi-lo ou a notar que o é, porque a(s) sociedade(s) está a começar a aceitar isso melhor, e porque os termos estão a ficar mais conhecidos, permitindo a mais gente que se veja refletida neles.

* A crise da SIDA (começou em 1980 e só foi melhorando a partir de 2000), juntamente com os Stonewall Riots, mereciam posts próprios de tal maneira foram marcos importantes - o primeiro um marco trágico, o segundo uma vitória (e aqui a tragédia veio depois da vitória). Mas para já contentem-se com estes links - eu adoro particularmente o que fala de como a atitude das lésbicas foi responsável por eliminar o fosso que havia entre a comunidade gay e lésbica, que era bem, beeeem distinta no passado:

Contudo, há vários membros a quem essa narrativa não se encaixa: em particular, pessoas cuja identidade é fluída, pessoas que têm curiosidade por procurar parceiros de diferentes géneros ou experimentar papéis de género distintos, ou que não se identificam com algo por muito que se enquadrem na definição mais mainstream. Se calhar há até mesmo pessoas que gostam de mais do que um género mas não se importam de passar a vida toda com parceiros sempre do mesmo género, não necessariamente porque género não lhes faz diferença, mas porque se sentem melhor afirmando certa parte de si, e nesse caso dá para dizer que elas estão a fazer uma escolha - mas estariam a escolher ser gays/trans/whatever, ou elas são bi/não-binárias/whatever-oposto-do-conjunto-anterior e apenas estão a escolher como se comportar ou querem ser vistas? E a identidade delas, consiste na definição do que sentem, ou na definição de como se comportam? Ou há algum senso de visão-própria interna separada de tudo o resto?  Pessoalmente, concordo com [este artigo] que diz que o oposto da narrativa "I was born this way" NÃO é "I chose this way": Podemos escolher as nossas ações, não os nossos sentimentos. Contudo, não poderemos também escolher dar mais atenção a certos sentimentos do que a outros?

São imensas questões, mas em todo o caso, essas pessoas que fogem do "Born this way" acabam por ser completamente desfavorecidas por uma narrativa tão redutora, não sendo levadas a sério até por vários membros da comunidade lgbt+. Essas pessoas também costumam questionar porquê que importa se são "gays desde nascença" ou não - a experiência delas é mais válida se tal se confirmar? Porquê que haveria de ser, se isso não afeta a maneira como se sentem/vêm/identificam no presente? Uma pessoa só deve ser respeitada por ser algo se nunca mudar ao longo da vida? A resposta nem devia ser necessária - e recomendo [este artigo] [talvez também este] para explicar melhor porquê. 

Também não tenho duvidas de que há mais pessoas como eu, que só se apercebem dos sentimentos/conceitos/whatever quando lhes é atribuído certa materialidade (um nome ou forma de ser representado). Eu nunca nunca nunca nunca nunca senti nada que se assemelhasse minimamente aos sentimentos que eu tinha por rapazes, por raparigas, até há poucos anos, mas como é que eu posso saber a razão disso? Como é que eu posso saber se era porque não tinha muitas amigas raparigas, se era porque não tinha um nome para o sentimento, ou se o sentimento não surgiria de todo? Eu realmente cada vez me convenço mais de que, se eu não tivesse tido tanta sorte com o material online que encontrei, eu seria apenas mais uma daquelas pessoas que suportaria a *cof* comunidade gay *cof*, mas se visse pessoas lgbt+ ou histórias com pessoas lgbt+ que não captassem todos os detalhes do sentimento que eu tinha, nunca me identificaria como tal. De todo.

E há tantas casos que denotam que as pessoas podem viver... numa mentira, que não é tão mentira assim:
  • Há raparigas que beijam outras raparigas mas, no coração delas, nunca se apercebem que há lá um sentimento que pode ser chamado de mais do que amizade.
  • Há pessoas de todos os géneros que ganham sentimentos românticos por pessoas do mesmo género que elas mas, por não sentirem atração física, confundem isso com amizade, pois nunca ninguém lhes disse que nem sempre a orientação romântica e sexual de alguém são iguais. 
  • Há raparigas que sabem que gostam de mulheres, mas têm um namorado e se consideram hétero, tanto é que em alguns lugares há "festas de sexo lésbico para mulheres hétero" [www] e não conseguem sequer conceber que é possível gostar só de mulheres ou ter um relacionamento que não envolva um homem.
  • Há rapazes que sabem que sentem algo por homens mas não sabem que isso basta para não se chamar de héteros, principalmente se gostam também de mulheres (que no entendimento deles e da maioria da comunidade lgbt+, faz com que não sejam gays), e hétero e gay são as únicas possibilidades que encaram como válidas.
  • Há raparigas que se identificam como lésbicas porque apesar de reconhecerem que ainda poderiam gostar de homens, não conseguem conceber voltar a viver como dantes. Mas se calhar algumas reconhecem que, se nunca tivessem dado uma oportunidade a  outra mulher, teriam vivido felizes como hetéros a vida toda.
  • Há zonas mais rurais onde é comum homens terem relacionamentos com homens, toda a gente sabe disso, e não são minimamente considerados gays, até porque têm mulheres, são homens de família, e o único sentimento que desenvolvem pelos homens com que se relacionam é amizade - juro que vou encontrar o artigo que falava disso! E eles fazem questão de dizer que preferem homens bi porque gays são muito femininos (é, toda a gente pode ter preconceitos e acreditar em estereótipos).
  • Há imensos homens que se intitulam hétero que vêm pornografia gay, o que por si só não quer dizer nada, mas muitos deles realmente ficam excitados com isso.
  • Há pessoas m-spec que não têm um mínimo de preferência, e que não se apercebem de que gostam de mais do que um género. Notar a existência de algo (ter preferência) é fácil, mas como é que se nota algo que não existe? Ou seja, como é que se apercebem  que gostam de outros géneros, se sempre ficaram satisfeitas que chegue com o facto de todas as pessoas com quem se relacionaram (ou simplesmente gostaram) terem sido do mesmo género?
  • Há pessoas genderfluid que às vezes ainda se questionam sobre a possibilidade de não serem cis, mas depois voltam a identificar-se com o género que lhes foi atribuído (ou se preferirmos a narrativa contrária, com o género binário oposto, se forem trans), e concluem que estavam confusas ou foi uma fase. De certa forma, foi mesmo uma fase, mas o termo genderfluid continuaria a aplicar-se se olhassemos para a vida delas como um todo. 
  • Há pessoas que gostam de mais do que um género, sabem disso, e optam por se relacionar com pessoas do género binário oposto ao que lhes foi atribuído por segurança ou conforto**
  • Há pessoas que se identificam como bi ou assim por um tempo, e depois concluem que foi uma fase, e que essa identidade não se adequa, pois são hétero. Também há pessoas que gostam de "experimentar" antes de saber o que são. 
  • Há pessoas que podiam jurar que são hétero ou cis durante grande parte da vida, pois realmente nunca sentiram nada que se assemelhasse a sentimentos pelo próprio género ou identificação com géneros diferentes dos atribuídos, e um dia - algumas dessas pessoas têm mais de 40 anos! - descobrem que a maneira como se sentem não é assim tão limitada (OBS: limitada numericamente, não estou a tentar rebaixar nenhuma identidade).
  • Há pessoas que acham que são gay ou lésbicas até certo ponto, e que até tiveram de lutar bastante por aceitação, e um dia descobrem que conseguem desenvolver sentimentos por pessoas de géneros diferentes do seu. Apenas nunca tinha acontecido até aquele ponto, e possivelmente há um diferencial no sentimento que fez com que não notassem logo.

**Embora nem toda a gente se sinta invisibilizada em situações assim, acho triste que algumas pessoas não possam ser autênticas por medo, e mais triste ainda que reações de defesa sejam tão mal encaradas pela comunidade lgbt+ num geral, que trata essas pessoas como traidores. Quase tão triste como pessoas m-spec (bi, pan...) que só se relacionam com pessoas do próprio género porque concordam que de outro modo estariam a ser privilegiadas e a trair a comunidade. Como se invisibilidade fosse um privilégio, e como se gostar de mais do que um género fosse mais aceite (até é discutível se não será menos, mas [aqui] o meu post sobre "Olimpíadas da opressão").

Eu gostava que se considerasse que todas as narrativas e experiências sao válidas, e que se parasse com o gatekeeping.

Considerações finais para ninguém sair daqui a achar que eu disse coisas que não disse:
  • Nada neste post implica que "toda a gente é um bocado lgbt+". Nem que pessoas gay ou trans sejam "um bocado bi" ou "um bocado cis/não-binárias/...".
  • De maneira nenhuma estou a implicar que todas as pessoas monossexuais (hétero, gays ou lésbicas) têm potencial para gostar de mais do que um género, ou já gostam e ignoram certos géneros de que gostam. O post apenas mencionou casos assim por serem esquecidos, mas há quem seja totalmente monossexual tanto por definição como por identificação.
  • Eu não estou a dizer que é aceitável chamar de X termo a alguém que não se identifica com ele - bem pelo contrário, fiz questão de dizer que identificação é mais importante.
  • Eu nem disse que a biologia é determinativa, nem que tem influência zero na identidade de uma pessoa. O mesmo para o meio e para a maneira como alguém é socializado. Tudo me parecem fatores influentes. A verdade? Provavelmente é mais complexa, não mais simples. 
  • Eu não estou a dizer que a narrativa do "born this way" não possa ser verdade para algumas pessoas. Estou a dizer que não é absoluta, e que não devia ser uma condição para respeitar, e validar alguém.
Pronto sapinhos, sei que devem ter ficado confuses, mas eu respondo a qualquer questão com muito gosto. Até à próxima ^^

Créditos pela arte:
» Kaenith: Charlie Weasley as Aromantic Asexual [www]
» I love broccoli: Some nonbinary awareness pictures [www]
» Drawing the line (provavelmente): My sexual preference is yeah/nope [www | www]
» Bi the way: Capa [www]
» Jess Scultz: Life outside the binary [www]
» Kirstendraws: Bisexualitea [www]

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2 comentários:

Lilium disse...

Oláááááá Any
Manoooo, faz tanto tempo que não apareço aqui! Obviamente a culpa é da faculdade – assim como minha recém-desenvolvida insônia, o vicio 3x maior por café, uns 30 problemas novos de autoestima e gases (pois é, todo o mal do mundo acaba em gases, ô Zeus, ô Vida), mas esses demônios acabaram porque agora estou de Fééériasss aaaaaaaaaaaaa <3 <3 <3 Um mês e meio para ler, assistir minhas séries, revisar calmamente o conteúdo desse meu primeiro ano de faculdade, ir pra baladas LGBT+ com os amigos (nunca mais vou colocar o pé em balada hétero – só dá merda), pintar umas camisetas, viajar pra praia, dormir muito e mais importante, resolver umas merdas e colocar minha vida no rumo... Aahhh.... Até escorreu uma lágrima de felicidade aqui :,)
Então flor~ Ainda quero te mandar um e-mail depois para falar de umas coisas mais pessoais. Mas espero que esteja tudo fantástico com você <3

Eu acabei de ler os seus 3 posts mais recentes e tô com a ponta dos dedos coçando de tanta coisa que quero falar (e vou acabar esquecendo metade rsrs), mas para começar, só deixa eu falar que fiquei muito feliz com esse seu post por você ter descoberto mais sobre você como você sente seu gênero e sexualidade <33

Eu acho nomes muito importantes. Talvez em parte isso seja por conta da minha bagagem literária, culpa do Nome do Vento e livros que falam sobre a magia da literatura e blablabla, mas gosto da ideia de que palavras tem poder. Acho que talvez por isso sempre tive uma tendência de gostar de definir as coisas – por outro lado DEFINIR também é LIMITAR.
Há sempre aquilo que é grande demais, especial, diferente demais para se adequar a uma palavra existente. Palavras fazem o elo de ligação entre a nossa percepção e a realidade (pelo menos é o que eu acho), elas são tão importantes para compreender o mundo – mas a realidade não é uma só, assim como a verdade. Se eu bem me lembro, os índios norte-americanos tinham 7 gêneros diferentes. É algo que RACIONALMENTE, eu não consigo entender – mas só porque não entendo, não quer dizer que não exista, não quer dizer que eu possa desrespeitar. O mesmo vale para a ausência de label.

Inclusive em razão disso, eu constantemente questiono se sou mesmo bi ou se sou pan: porque eu gosto da pessoa, da personalidade dela, da ALMA dela e tô cagando e andando pro gênero, se é homem, mulher, nada, os dois, os 7, se é trans, se é cis etc – e isso é basicamente a definição de pansexualidade.
Por outro lado (eu gosto mais da bandeira bi – okks é verdade que azul-roxo-rosa são as cores da minha vida, mas só to zuando) eu costumo gostar mais de mulheres, e apreciar mais o corpo feminino e eu sei lá, quando parece que a pansexualidade vê todo mundo igual – eu vejo a diferença dos gêneros, sei lá, é difícil explicar porque parece que estou sendo transfobia de alguma maneira ou observando os estereótipos de gênero, mas NÃO é isso. E a confusão é exatamente porque não tenho palavras pra descrever. Às vezes eu sinto que estou no meio do caminho entre as duas labels. Mas quando eu paro, eu sinto que eu sou bissexual, é como se fizesse um “click” na minha mente e “okks, certinho é isso mesmo”.
E mesmo que eu me definisse como pan, isso não iria mudar nada o jeito que eu sinto a atração romântica e sexual. Eu acho que essa é a questão: se você quiser e se sentir confortável, você pode se encaixar na label que você, o importante é que isso não te acorrente e te obrigue a encarar a realidade dessa maneira. Se uma mulher que se assume lésbica está namorando um homem (e não falo de mulher trans, mas uma pessoa que se identifique como homem, seja cis ou não) então respeite a decisão dela, não diga que ela é bi+ ou que tem bifobia internalizada (sim, pode ser o caso, mas...) mas o mesmo tempo esse homem que ela namora pode ser a exceção da exceção da exceção e foda-se se não for. Ninguém tem como saber o que se passa na cabeça dela, é a REALIDADE DELA – então deixa ela ser feliz e fim de papo.

ღ Anilyan ღ disse...

EXATAMENTE! Aliás, nem lembrava que vc tinha lido o nome do vento, é dos meus livros favoritos e eu também sempre acreditei no poder das palavras.

Então, eu ainda nem tenho férias, vou só ter uns dias de pausa de natal e ano novo, mas vou tetnar responder rápido:
Então, eu também gosto de pessoas de todos os géneros mas me identifico como bi também. E é engraçado pk as pessoas não consideram que as definições das palavras se podem sobrepor >.< Pan significa sim atração independentemente do género, mas bi significa atração por dois ou mais géneros, se usarmos a definição mais abrangente. Até por isso eu me identifico com as duas, e isso pode servir para vocÊ também. Sinto que somos bem parecidas, eu também prefiro várias coisas da comunidade bi ^^ Daí ser a label que eu prefiro. E quanto ao que você mencionou de a label pan não captar uma certa diferença entre os géneros, you're not alone in your fight, essa é uma das várias razões mais comuns para optar pela label bi, e eu nao acho nada transfóbico: eu sempre tive a sensação de que a pansexualidade encara géneros como "somos todos diferentes mas no funco todos iguais", e a bissexualidade como "somos todos iguais mas no fundo todos diferentes" muahaha explicando: a pansexualidade vê mais o facto de que somos todos humaninhos e tal. A bissexualidade valoriza mais a diferença na identidade das pessoas. Bissexuais que não diferenciam pela identidade e sim pelo corpo, esses são mesmo transfóbicos, mas gente transfóbica até na comunidade pan há - aliás, até mesmo na comunidade trans. Se quiser saber mais sobre a diferença entre bi e pan: http://quiltbpag-any.tumblr.com/post/157816690189/que-motivos-levam-algu%C3%A9m-a-optar-por-bi-ou-pan

E você capta mesmo bem o que eu quero dizer - esse exemplo que vocÊ deu da mulher lésbica e de não conhecermos a realidade da pessoa é simplesmente perfeito.

Jaa! Mande emails sim, eu tenho saudades de tagarelar :3