Eu anunciei no post anterior que ia fazer um artigo a
criticar e elogiar determinados pontos da Women's march. Se vocês forem tão aluades como eu, ou não ouviram falar disso de todo, ou só ouviram falar
depois do evento ter passado, MAS eu aproveitei isso para me informar sobre o assunto. O post irá focar no peso que o evento adquiriu devido à vitória de Trump - que literalmente ignorou que tanta gente tenha saído à rua contra ele e pouco depois da marcha estava a dedicar-se a criar leis anti-aborto, mas fazer o quê. Então pronto, termino a introdução dizendo que este post será [
feminista], como tal, abordará vários dos pontos desse link amável aí, e vai também explicar melhor o que é e qual o contexto da women's march. Estará repleto de felicidade pelo grande número de pessoas que se reuniram no evento e pelo propósito do mesmo, mas terá parágrafos bem desanimados em decorrência da transfobia e do racismo denotados pelos participantes.
NOTA: A HINA-CLONE FEZ ANOS DIA 24! Se não deram os parabéns, ainda vão a tempo!!! Aqui o [
blog dela].
» A "Marcha da Mulher" é um evento para quem compreende que direitos das mulheres são direitos humanos. A página oficial é esta aqui:
www
» Decorreu a 21 de Janeiro de 2017, e ocorreu a nível global, ainda que o cerne do evento tenha sido Washington.
» Ficou conhecido como um evento contra o Trump e tudo o que ele representa, sendo que alguns dos símbolos do evento são a frase "Pussy grabs back" (em resposta ao que Trump disse uma vez a incentivar assédio, "Grab her by the pussy"), e os cartazes maravilhosos que coloquei em baixo.
» Os temas que em teoria foram o foco do evento são todos os temas feministas possíveis: Direitos das mulheres e Igualdade de género, direitos LGBT+, Direitos à saúde reprodutiva, Igualdade racial, Reforma dos imigrantes, Direitos dos trabalhadores, Reforma dos cuidados de saúde, Proteção ambiental, entre outros.
» Começou com um post do facebook por uma avó havaiana Teresa Shook, um dia depois de Hillary Clinton "perder" a votação. Muita gente respondeu, clamando por uma revolução e transformando o evento num dos maiores da América, com mais de meio milhão de aderentes.
O lado positivo da women's march foi o significado que teve: Reuniram-se muitas
mais pessoas que as esperadas - tem piada ver [
aqui] como isso afetou o dia a dia e como alguns locais nem tiveram como albergar tanta gente. Além disso, rendeu algumas fotos muito boas.. Para quem não estava a par dos eventos, como euzinha, descobrir de repente que há tanta gente a reconhecer a igualdade de género e outras causas como algo importante e Trump como uma ameaça às mesmas foi um alívio E um orgulho, pois números causam mudança - exatamente [
este] tipo de sentimento.
Também foram feitos discursos com foco nas várias causas da marcha, e podem ver [
aqui] alguns deles. Podem ver um dos melhores, o discurso de Angela Davis, em português [
aqui].
E contudo... As minorias das minorias foram espezinhadas por feministas brancas, radicais e de elite. Então neste post vou, por categoria, explicar as críticas feitas pelas minorias em questão que se viram um pouco esquecidas.
Sobre questões étnico-raciais
Os 3 cartazes que mais chamaram a atenção para o racismo na marcha estão [
neste link]. Neles, estão escritas as frases "Don't forget: white women voted for Trump", "Being scared since 2016 is privilege" e "I'll see you nice white ladies at the next #BlackLivesMatter march, right?".
O evento era para se ter chamado "Million Women's March", um nome que estaria a ser
apropriado de um acontecimento em 1997 para mulheres negras [
www], e mesmo o nome "March on Washington" tem problemas semelhantes [
www]. Creio que [
este post] é uma boa introdução para o sentimento de perturbação que estava na mente de pessoas poc antes mesmo da marcha em questão. Para todos os efeitos, Hillary teve mais votos, e Trump só ganhou devido ao peso atribuído aos votos de determinados estados. Isso não muda o facto de que
os votos de Trump partiram de gente branca (53% das mulheres brancas votaram em Trump, comparando com 6% das mulheres negras, o que prova que o racismo fala mais alto que a "auto-preservação") que não tem a menor noção do que é viver numa sociedade estruturalmente racista.
Até que ponto elas estariam ali, a marchar, se Trump não ameaçasse direitos reprodutivos e semelhantes, em vez disso apenas ameaçando pessoas de cor? Apoiariam as pessoas negras, asiáticas, latinas... ou ficariam no conforto da própria casa sabendo que os seus próprios direitos já estavam assegurados e encarando igualdade racial como um problema de segundo grau? Talvez muita gente se sinta inclinada a dizer que qualquer pessoa decente ajudaria na causa, mas há muitas feministas que são hipócritas e que ignoram completamente tudo o que não as afete de forma direta - eu fiz um textinho criticando as várias formas de hipocrisia de supostas feministas [
aqui], e comecei logo pelo feminismo branco.
Nem todas as pessoas sabem, mas
o feminismo tem uma história de privilégio - as mulheres poderiam ter desvantagens em relações aos homens (cis), mas isso não muda o facto de que os direitos das mulheres foram conquistados por gente de elite que atropelou mulheres de classe baixa, e por mulheres brancas que atropelaram mulheres negras - por exemplo, na obra
The grounding of modern feminism, há esta citação: “Despite links between early woman’s rights and anti-slavery reformers, the suffrage movement since the late nineteenth century had caved in to the racism of the surrounding society, sacrificing democratic principle and the dignity of black people if it seemed advantageous to white women’s obtaining the vote.” Há casos muito concretos que demonstram isso mesmo, e as comunidades negras mencionam frequentemente que o feminismo delas é bastaaaante distinto do feminismo típico (ou seja, do feminismo não-intersectional).
Achei [
este artigo] a defender que, precisamente, o racismo presente na Women's march não é de agora - está engrenhado da história e a frase "Somos todos iguais" nunca incluiu pessoas negras, apesar de o [
feminismo negro] sustentar a base do feminismo mais popular. De novo irónico. Para que fique claro, o evento em questão foi planificado de forma a ser verdadeiramente inclusivo de todos os grupos, incluindo étnico-raciais (salientando como o sexismo afeta principalmente mulheres de cor), e a comunidade poc não se sentiu prejudicada por isso, reconhecendo até que várias dos discursos proferidos citavam explicitamente que racismo era um problema a combater: "Angela Davis told the crowd, “Inclusive and intersectional feminism ... calls upon all of us to join the resistance to racism, to Islamophobia, to anti-Semitism, to misogyny, to capitalist exploitation.” She listed “resistance to the attacks on Muslims and on immigrants, disabled people,” “state violence perpetrated by the police and through the prison industrial complex,” and “institutional and intimate gender violence, especially against trans women of color,” among her priorities for action.". Foi a realização propriamente dita da marcha que a ameaçou e invisibilizou, devido à ignorância de
alguns indivíduos. Aqui alguns exemplos dos conflitos que surgiram e contribuíram para provar que muita gente branca não queria qualquer conexão com as comunidades poc:
- Várias pessoas brancas abraçaram policiais num gesto de se distanciarem das comunidades negras, mesmo tendo noção da violência da polícia para com essas comunidades. Basicamente, estavam a tentar transmitir a ideia de que #BlueLivesMatter, que surgiu como oposição ao #BlackLivesMatter - vejam os mitos sobre ele desmentidos [aqui - podem ver a transcrição do texto para entender melhor.
- A maioria das pessoas ignorou e mostrou desconhecimento em relação aos discursos de várias pessoas negras e poc, inclusivamente os de Angela Davis (que era um dos nomes mais conhecidos).
- O rosa dos chapéus é muito associado ao feminismo branco, normalmente conectado à anatomia e físico das mulheres brancas, tecnicamente servindo para dizer que isso as une e que são todas irmãs - como Yaba Blay (que estudou de que modo colorismo interfere no racismo) disse, não é o físico que deveria unir as mulheres, e isso afeta também mulheres trans por não as validar enquanto mulheres verdadeiras.
- A maioria das pessoas brancas presentes na manifestação só se começaram a preocupar e mobilizar após a vitória de Trump, uma vez que isso as coloca em risco. Até esse ponto, nunca tinham oferecido suporte a movimento nenhum. Egoísmo, sim ou claro?
- Algumas feministas brancas fizeram-se de vítimas, dizendo que não percebiam porquê que mulheres negras se estavam a voltar contra elas e que não entendiam o significado de"Check your privilege", estando a começar a sentir-se inseguras - [aqui] um belo exemplo dessa hipocrisia.
- Mais exemplos [aqui] de como gente branca foi ridícula e disse que a marcha das mulheres virou a câmara da tortura interseccional, acusando poc de se armarem em vítimas, inventarem conceitos e lutarem contra quem está do seu lado - ou seja, para além de hipócritas, são ignorantes. Esse link é ótimo por mostrar através de exemplos atuais e históricos as consequências de esquecer o conceito de interseccionalidade.

Felizmente, também houve gente branca a reconhecer o racismo como um problema a combater, e frases como "Vou usar o meu privilégio branco para o bem". Também se viram cartazes por parte de gente branca proclamando suporte pelos direitos dos Muçulmanos, pelo movimento Black Lives Matter e pelos direitos dos Imigrantes. Então há esperança, e bastante. Mas como foi dito pelas comunidades negras (
principalmente), o verdadeiro teste à interseccionalidade do feminismo será
após elas terem voltado para casa, onde deverão respeitar as várias identidades de certas pessoas no dia-a-dia, nas suas ações, pois nem sempre palavras bonitas escritas num cartaz correspondem ao que uma pessoa faz na prática. Pouca gente irá cortar laços ou confrontar as pessoas que votaram em Trump, se estas forem pessoas próximas. Pouca gente irá questionar o seu próprio privilégio branco.
Algumas mulheres negras não foram à marcha e não se arrependem, pois os seus receios confirmaram-se [
www].
Muitas pessoas trans acusaram a marcha de ser transfóbica e
a mídia cobriu isso como se essa comunidade estivesse a exagerar e a proibir mulheres cis de falar sobre os próprios corpos, mas não é verdade. O ponto é que usar símbolos de vaginas, úteros e afins associados a frases como acabar a violência contra TODAS as mulheres, passa a ideia de que úteros = mulheres. Não só isso, desconsidera que mulheres cis não são a única identidade marginalizada - mulheres trans, homens trans, pessoas não-binárias, e mesmo pessoas intersexo são ainda mais marginalizadas. Eu não tenho praticamente nada a acrescentar ao que que a Dana disse num
batdrama recente, a não ser fontes. Então aqui vai a citação dela, e se se quiserem informar um pouco mais, podem tentar estes links: [
www |
www |
www]
"Mesmo aprendendo bastante coisa, ainda tem muita merda internalizada. Eu me pego nessa ideia de que uma mulher trans é na verdade um homem roubando espaço - não é algo que eu acredito, mas meu cérebro ainda tá acostumado lá no fundo a ver dessa forma, a ver o "homem" na mulher trans, e quando eu não estou atenta, isso orienta o que eu sinto e a minha opinião. Isso é algo, aliás, muito comum. É fácil dizer que racismo é ruim, ou homofobia é errado, mas o racismo e a homofobia e a transfobia estão enraizados na nossa forma de pensar, é aí que entra a desconstrução, eu acho. É algo além de fazer uma afirmação óbvia. É ir no fundo, buscando essas raízes e cortando. Só que quando a gente faz isso, muita coisa desaba porque muito do que nós pensamos, está sendo sustentado nisso. Então, talvez, a gente precise se desconstruir, mas também reconstruir. tá, foda-se.
O que importa é que eu tinha lá esses preconceitos, que me levavam a incertezas e suspeitas. Então eu fui buscar a opinião de pessoas trans sobre o assunto.
- A crítica era especificamente sobre a Woman's March. Woman's March. A Marcha da Mulher. Mulher. O que tem isso? Coisas como ter útero, menstruar, vagina - são parte da experiência só de algumas mulheres (e nem só mulher cis, porque tem mulher cis que também não se encaixa nesses ideais). Além disso, nós vivemos num mundo transfóbico/cissexista do caralho onde já parte do pressuposto de que essa é a experiência universal da mulher. Então quando você junta as duas coisas, existe, sim, um reforço de que a ideia de que só existe esse tipo de mulher e ele é o Verdadeiro™. Se fosse uma Marcha LGBT ou uma para "Mulher LGBT", que só fala de lésbica e reforça a vivência lésbica - eu não ia pensar duas vezes em apontar o apagamento da bissexualidade/pansexualidade. Ainda mais porque existe já a ideia de que bissexualidade não existe de verdade e ou você é hétero ou você é homossexual. Então, sim, se fazem uma Marcha da Mulher LGBT que ignoram a existência da mulheres bissexuais e cartazes que apenas afirmam ser lésbica como a única forma possível, eu ia criticar. Por que eu não criticaria isso da Woman's March? Por que eu não considero a vivência da mulher trans real o bastante como mulher? Provavelmente era isso que tava acontecendo.
- Não era sobre todos os cartazes de Pussy. Um dos comentários é que o "Pussy Grabs Back" (em resposta ao que o Trump falou sobre grab as pussy das mulher) tinha contexto, já que essa marcha era até em revolta a presidência dele e a frase virou um grito de guerra/resistência. E acho (não sou uma pessoa trans pra dizer o que é transfóbico), mas acho que não era tão problemático. O tenso mesmo eram os outros, chapeuzinho de vagina e tal, que reforçavam a ideia de que ser "mulher" é ter vagina. (obs: e o comentário de "grab her by the pussy" do trump também afeta as mulheres trans)
- Contexto importa. Uma pessoa trans que eu li comentando o assunto, até fala "Se fosse algumas pessoas com um cartaz teria problema? Provavelmente não. Agora um monte? Provavelmente sim. Porque quando se trata de uma marcha, ninguém vai olhar individualmente cartaz por cartaz, o que fica é a imagem completa e, com intenção ou não, a imagem completa que a Woman's march deixou é que esse é o tipo Válido™ de mulher." A pessoa também fala que em uma marcha focada em questões específicas, os mesmos cartazes seriam ok, porque são sobre o assunto em si. E que o objetivo não é dizer que mulher que tem vagina não pode falar abertamente sobre ter vagina ou útero, nem que fazer isso é transfóbico, é só o contexto da marcha mesmo. Até deu uns exemplos de moderar isso acrescentando aos cartazes coisas que poderiam quebrar a ideia cissexista que iguala vaginas etc a ser mulher.
- Curiosamente, em paralelo eu li uma entrevista com uma mulher indígena falando sobre o racismo e desrespeito que sofreu na marcha, onde ela também comenta da transfobia. E teve uma entrevista com umas mulheres de filme que basicamente silenciaram uma ativista negra falando da própria experiência, e ela ainda comentou da questão trans (mesmo sendo cis também). Eu acho que talvez elas entendam o que as mulheres trans estão dizendo, porque elas também enfrentam o mesmo problema da versão de mulheres brancas sendo considerada a versão Universal™ do que significa ser mulher. O termo "White feminism" tá aí pra discutir isso."
Outros tópicos
O último ponto da questão trans já mostra como as interseccionalidades são importantes e como há muitos outros assuntos à mistura. Então vou, para deixar o post mais completo, mencionar brevemente vários deles:
- A violência da polícia: Já comentei a ironia de como as pessoas brancas confraternizaram - ao ponto de agradecer e tirar selfies - com a polícia, como afronta ao movimento #BlackLivesMatter. Mas o mais irritante foi o protesto ter sido elogiado e chamado de progressista por ter sido pacífico, em comparação com protestos feitos por pessoas negras, pessoas queer... É triste, porque isso reforça a ideia de que alguns protestos se tornam violentos ou terminam com pessoas presas por culpa de quem protesta, quando é a polícia que não está treinada para lidar com minorias e acaba reagindo mal por impulso ou despreparação. Mais informação importante [neste post].
- Proteção de trabalhadoras de sexo: Janet Mock, uma mulher trans de cor com um background como prostituta, fez um discurso interseccional mas teve a linha "...and we stand in solidarity with sex workers' rights movements" trocada por uma que confunde trabalho de sexo com tráfico de sexo, aparentemente um problema já enraizado no feminismo [www]. Esse link traduz o apagamento e a frustração de muita gente que se prostitui, que estão fartas de serem encaradas como alguém que tem de ser salva - precisam é de respeito, de ser protegidas da violência e abuso (da própria polícia) e reconhecimento, seja por terem escolhido esse caminho, seja porque o percorreram por necessidade. Não devia ser tabu nem vergonha reconhecer a experiência e trabalho delas, aliás, em teoria um dos propósitos da marcha era declarar o direito de todas as mulheres decidirem sobre o que fazer com o próprio corpo. Mas leiam o link, não é muito longo e capta o espírito das críticas.
- Populações indígenas: Vi poucos posts especializados neste assunto - apenas estes [www | www] - e confesso que não sou a pessoa mais adequada para falar deste tópico. Mas mesmo eu estou informada que chegue para reconhecer o desprezo por parte das mulheres brancas que silenciaram pessoas nativo-americanas quando estas tentaram protestar pela dificuldade de obter água, mencionar outras lutas que vivenciam e tornar a sua cultura um pouco mais visível com cânticos e assim. Se pessoas brancas não conseguem compreender as dificuldades e necessidade de comunidade para pessoas indígenas, pelo menos assumam uma atitude humilde de quem está disposto a aprender, em vez de se rirem e questionarem perante uma cultura e realidade diferente. Ou seja, não sejam como as pessoas do segundo link.
- Pessoas com deficiências (e não só): Este [primeiro link] menciona como a experiência de pessoas com deficiências foi um pouco invisibilizada na women's march, enquanto [este] trata de como elas deram a volta à questão. Pessoas com doenças, deficiências e outras incapacidades foram literalmente tratadas como "fardos" de quem mulheres são obrigadas a cuidar, não reconhecendo que elas também podem ser mulheres e minorias e fazendo essas pessoas sentirem-se culpadas por serem quem são. Foram esquecidas em muitos parágrafos importantes da página do evento, ou mencionadas da forma errada. Nenhuma organização para pessoas com deficientes foi incluída na lista de contribuidores, e pode-se dizer que as pessoas foram levadas a acreditar que seriam incluídas, mas que isso não passou de palavras bonitas...
- A questão do véu: burqa, hijab... eu tentei aprender a diferenciar isso reunindo várias imagens e definições [nesta] - demorei séculos a montar isso. Mas comecei a pensar na questão após ver [este post]. Lembro-me de ter ficado feliz quando vi uma mulher com um véu entre os cartazes icónicos da marcha, e sei que muitas mulheres que se revém nisso ficaram felizes e têm orgulho nesse seu símbolo. Cultura, religião, comunidade... HÁ de facto quem use o véu por escolha própria, por uma multitude de razões, e que o encare como uma afirmação da sua identidade. Mas é importante, como dito nesse link, lembrar que ainda há muita gente que não tem a oportunidade de escolher. Os hijabs DEVEM ser um símbolo de liberdade, mas esse ainda não é um estado universal. É importante empoderar o símbolo sem espezinhar a realidade de massas de outras mulheres.
Aqui uma citação do post mencionado no tópico da violência policial:
"There was understandable frustration and resentment toward some attendees at the Women's March from communities who have been doing the work on the front lines of social justice movements for years, and under significantly more dangerous circumstances that the Women's March on Washington. Black women, queer folks, disabled people, et al existing at the intersection of multiple marginalized identities have been setting up the framework for this kind of activism for a very long time, only to be discredited, silenced, excluded, and betrayed in the execution of this large-scale event. White women who had never been to a protest before were showing up to this one, performing resistance, and taking all the credit, while forgetting to listen to and take their cues from the people who have already been on the front lines, making this possible for them."
"No one wants to feel like a bad person. Finding out that you might be harming people simply because you have been oblivious to them and their needs is a hard truth to confront." - Cooper
Concluindo: Historicamente, mulheres negras, mulheres queer e lgbt+, profissionais de sexo, mulheres com deficiências ou neurodivergências, entre outras, contribuíram para tornar o feminismo esse movimento praticamente mainstream que vemos hoje, colaborando de livre vontade, para depois feministas cis brancas classe média usarem a atenção que receberam para combater exclusivamente os problemas que elas vivenciavam (
como desconstruir o estereótipo da dona doméstica e outros). E é necessário impedir que a história se repita nesse aspeto. Feminismo deve lutar por toda a gente, não apenas por quem está mais próximo de alcançar direitos e reconhecimento. Feminismo deve ser solidário e inclusivo.
Creio que
consigo entender bem a frustração que é, pois com o movimento lgbt+ aconteceram coisas semelhantes. Não basta que se tenha chamado "movimento gay" por muito tempo, bissexuais sempre ajudaram na luta, mas a comunidade homossexual (depois de ter conseguido atenção e direitos mínimos) diz ainda hoje que "nunca viu bissexuais a ajudar" quando o ativismo bi é um dos mais ferozes, a comunidade gay usa e abusa dos nossos resources e muitos bissexuais até abdicaram da sua identidade, fazendo de conta que eram gays e lésbicas,
para fazer parecer que a comunidade homossexual era mais numerosa do que na realidade era (talvez seja por isso que ainda hoje muita gente ache que a bissexualidade não existe - assumem que somos gays ou héteros com base nos relacionamentos presentes e estamos marcados na história como sendo de uma dessas binárias). Esse é um tópico que quero explicar melhor e com as devidas fontes num futuro post, transpondo-o para o que aconteceu bastante com a comunidade trans (que só é lembrada para acusar bissexuais de transfobia, apesar de historicamente a comunidade bi sempre ter sido uma das maiores apoiantes da comunidade trans), e para o que está a acontecer agora com a comunidade ace (basicamente o "discourse" contra assexuais é bifobia reciclada). Ok, fica para o próximo post. Estou a
pegar pesado na representatividade, não estou?
Enfim, vou ficar por aqui. Espero que não estejam já enjoades de me ouvir falar disto ^^