Ohayou minna-san! Aqui é a Any, do {Forever Sapo}. Este é um blog onde direi, sem compromissos, qualquer coisas que me venha à cabeça, através de posts desconectados entre si. É só uma forma de matar saudades da blogosfera.

26 fevereiro 2017

Pérolas e problemas da Women's march


Ohayou, sapinhos ^^ Só para despachar isto e clamar o blog: Follow my blog with Bloglovin!

Eu anunciei no post anterior que ia fazer um artigo a criticar e elogiar determinados pontos da Women's march. Se vocês forem tão aluades como eu, ou não ouviram falar disso de todo, ou só ouviram falar depois do evento ter passado, MAS eu aproveitei isso para me informar sobre o assunto. O post irá focar no peso que o evento adquiriu devido à vitória de Trump - que literalmente ignorou que tanta gente tenha saído à rua contra ele e pouco depois da marcha estava a dedicar-se a criar leis anti-aborto, mas fazer o quê. Então pronto, termino a introdução dizendo que este post será [feminista], como tal, abordará vários dos pontos desse link amável aí, e vai também explicar melhor o que é e qual o contexto da women's march. Estará repleto de felicidade pelo grande número de pessoas que se reuniram no evento e pelo propósito do mesmo, mas terá parágrafos bem desanimados em decorrência da transfobia e do racismo denotados pelos participantes.

NOTA: A HINA-CLONE FEZ ANOS DIA 24! Se não deram os parabéns, ainda vão a tempo!!! Aqui o [blog dela]. 

O que é a Women's march?
» A "Marcha da Mulher" é um evento para quem compreende que direitos das mulheres são direitos humanos. A página oficial é esta aqui: www
» Decorreu a 21 de Janeiro de 2017, e ocorreu a nível global, ainda que o cerne do evento tenha sido Washington.
» Ficou conhecido como um evento contra o Trump e tudo o que ele representa, sendo que alguns dos símbolos do evento são a frase "Pussy grabs back" (em resposta ao que Trump disse uma vez a incentivar assédio, "Grab her by the pussy"), e os cartazes maravilhosos que coloquei em baixo. 
» Os temas que em teoria foram o foco do evento são todos os temas feministas possíveis: Direitos das mulheres e Igualdade de género, direitos LGBT+, Direitos à saúde reprodutiva, Igualdade racial, Reforma dos imigrantes, Direitos dos trabalhadores, Reforma dos cuidados de saúde, Proteção ambiental, entre outros.
» Começou com um post do facebook por uma avó havaiana Teresa Shook, um dia depois de Hillary Clinton "perder" a votação. Muita gente respondeu, clamando por uma revolução e transformando o evento num dos maiores da América, com mais de meio milhão de aderentes.


O lado positivo da women's march foi o significado que teve: Reuniram-se muitas mais pessoas que as esperadas - tem piada ver [aqui] como isso afetou o dia a dia e como alguns locais nem tiveram como albergar tanta gente. Além disso, rendeu algumas fotos muito boas.. Para quem não estava a par dos eventos, como euzinha, descobrir de repente que há tanta gente a reconhecer a igualdade de género e outras causas como algo importante e Trump como uma ameaça às mesmas foi um alívio E um orgulho, pois números causam mudança - exatamente [este] tipo de sentimento.

Também foram feitos discursos com foco nas várias causas da marcha, e podem ver [aqui] alguns deles. Podem ver um dos melhores, o discurso de Angela Davis, em português [aqui].

E contudo... As minorias das minorias foram espezinhadas por feministas brancas, radicais e de elite. Então neste post vou, por categoria, explicar as críticas feitas pelas minorias em questão que se viram um pouco esquecidas. 

Sobre questões étnico-raciais
Os 3 cartazes que mais chamaram a atenção para o racismo na marcha estão [neste link]. Neles, estão escritas as frases "Don't forget: white women voted for Trump", "Being scared since 2016 is privilege" e "I'll see you nice white ladies at the next #BlackLivesMatter march, right?".

O evento era para se ter chamado "Million Women's March", um nome que estaria a ser apropriado de um acontecimento em 1997 para mulheres negras [www], e mesmo o nome "March on Washington" tem problemas semelhantes [www]. Creio que [este post] é uma boa introdução para o sentimento de perturbação que estava na mente de pessoas poc antes mesmo da marcha em questão. Para todos os efeitos, Hillary teve mais votos, e Trump só ganhou devido ao peso atribuído aos votos de determinados estados. Isso não muda o facto de que os votos de Trump partiram de gente branca (53% das mulheres brancas votaram em Trump, comparando com 6% das mulheres negras, o que prova que o racismo fala mais alto que a "auto-preservação") que não tem a menor noção do que é viver numa sociedade estruturalmente racista. Até que ponto elas estariam ali, a marchar, se Trump não ameaçasse direitos reprodutivos e semelhantes, em vez disso apenas ameaçando pessoas de cor? Apoiariam as pessoas negras, asiáticas, latinas... ou ficariam no conforto da própria casa sabendo que os seus próprios direitos já estavam assegurados e encarando igualdade racial como um problema de segundo grau? Talvez muita gente se sinta inclinada a dizer que qualquer pessoa decente ajudaria na causa, mas há muitas feministas que são hipócritas e que ignoram completamente tudo o que não as afete de forma direta - eu fiz um textinho criticando as várias formas de hipocrisia de supostas feministas [aqui], e comecei logo pelo feminismo branco. 

Nem todas as pessoas sabem, mas o feminismo tem uma história de privilégio - as mulheres poderiam ter desvantagens em relações aos homens (cis), mas isso não muda o facto de que os direitos das mulheres foram conquistados por gente de elite que atropelou mulheres de classe baixa, e por mulheres brancas que atropelaram mulheres negras - por exemplo, na obra The grounding of modern feminism, há esta citação: “Despite links between early woman’s rights and anti-slavery reformers, the suffrage movement since the late nineteenth century had caved in to the racism of the surrounding society, sacrificing democratic principle and the dignity of black people if it seemed advantageous to white women’s obtaining the vote.” Há casos muito concretos que demonstram isso mesmo, e as comunidades negras mencionam frequentemente que o feminismo delas é bastaaaante distinto do feminismo típico (ou seja, do feminismo não-intersectional).

Achei [este artigo] a defender que, precisamente, o racismo presente na Women's march não é de agora - está engrenhado da história e a frase "Somos todos iguais" nunca incluiu pessoas negras, apesar de o [feminismo negro] sustentar a base do feminismo mais popular. De novo irónico. Para que fique claro, o evento em questão foi planificado de forma a ser verdadeiramente inclusivo de todos os grupos, incluindo étnico-raciais (salientando como o sexismo afeta principalmente mulheres de cor), e a comunidade poc não se sentiu prejudicada por isso, reconhecendo até que várias dos discursos proferidos citavam explicitamente  que racismo era um problema a combater: "Angela Davis told the crowd, “Inclusive and intersectional feminism ... calls upon all of us to join the resistance to racism, to Islamophobia, to anti-Semitism, to misogyny, to capitalist exploitation.” She listed “resistance to the attacks on Muslims and on immigrants, disabled people,” “state violence perpetrated by the police and through the prison industrial complex,” and “institutional and intimate gender violence, especially against trans women of color,” among her priorities for action.". Foi a realização propriamente dita da marcha que a ameaçou e invisibilizou, devido à ignorância de alguns indivíduos. Aqui alguns exemplos dos conflitos que surgiram e contribuíram para provar que muita gente branca não queria qualquer conexão com as comunidades poc:
  • Várias pessoas brancas abraçaram policiais num gesto de se distanciarem das comunidades negras, mesmo tendo noção da violência da polícia para com essas comunidades. Basicamente, estavam a tentar transmitir a ideia de que #BlueLivesMatter, que surgiu como oposição ao #BlackLivesMatter - vejam os mitos sobre ele desmentidos [aqui - podem ver a transcrição do texto para entender melhor.
  • A maioria das pessoas ignorou e mostrou desconhecimento em relação aos discursos de várias pessoas negras e poc, inclusivamente os de Angela Davis (que era um dos nomes mais conhecidos). 
  • O rosa dos chapéus é muito associado ao feminismo branco, normalmente conectado à anatomia e físico das mulheres brancas, tecnicamente servindo para dizer que isso as une e que são todas irmãs - como Yaba Blay (que estudou de que modo colorismo interfere no racismo) disse, não é o físico que deveria unir as mulheres, e isso afeta também mulheres trans por não as validar enquanto mulheres verdadeiras.
  • A maioria das pessoas brancas presentes na manifestação só se começaram a preocupar e mobilizar após a vitória de Trump, uma vez que isso as coloca em risco. Até esse ponto, nunca tinham oferecido suporte a movimento nenhum. Egoísmo, sim ou claro? 
  • Algumas feministas brancas fizeram-se de vítimas, dizendo que não percebiam porquê que mulheres negras se estavam a voltar contra elas e que não entendiam o significado de"Check your privilege", estando a começar a sentir-se inseguras - [aqui] um belo exemplo dessa hipocrisia. 
  • Mais exemplos [aqui] de como gente branca foi ridícula e disse que a marcha das mulheres virou a câmara da tortura interseccional, acusando poc de se armarem em vítimas, inventarem conceitos e lutarem contra quem está do seu lado - ou seja, para além de hipócritas, são ignorantes. Esse link é ótimo por mostrar através de exemplos atuais e históricos as consequências de esquecer o conceito de interseccionalidade.
Felizmente, também houve gente branca a reconhecer o racismo como um problema a combater, e frases como "Vou usar o meu privilégio branco para o bem". Também se viram cartazes por parte de gente branca proclamando suporte pelos direitos dos Muçulmanos, pelo movimento Black Lives Matter e pelos direitos dos Imigrantes. Então há esperança, e bastante. Mas como foi dito pelas comunidades negras (principalmente), o verdadeiro teste à interseccionalidade do feminismo será após elas terem voltado para casa, onde deverão respeitar as várias identidades de certas pessoas no dia-a-dia, nas suas ações, pois nem sempre palavras bonitas escritas num cartaz correspondem ao que uma pessoa faz na prática. Pouca gente irá cortar laços ou confrontar as pessoas que votaram em Trump, se estas forem pessoas próximas. Pouca gente irá questionar o seu próprio privilégio branco.

Algumas mulheres negras não foram à marcha e não se arrependem, pois os seus receios confirmaram-se [www]. 


Sobre pessoas trans
Arte da comic [Assigned male]
Muitas pessoas trans acusaram a marcha de ser transfóbica e a mídia cobriu isso como se essa comunidade estivesse a exagerar e a proibir mulheres cis de falar sobre os próprios corpos, mas não é verdade. O ponto é que usar símbolos de vaginas, úteros e afins associados a frases como acabar a violência contra TODAS as mulheres, passa a ideia de que úteros = mulheres. Não só isso, desconsidera que mulheres cis não são a única identidade marginalizada - mulheres trans, homens trans, pessoas não-binárias, e mesmo pessoas intersexo são ainda mais marginalizadas. Eu não tenho praticamente nada a acrescentar ao que que a Dana disse num batdrama recente, a não ser fontes. Então aqui vai a citação dela, e se se quiserem informar um pouco mais, podem tentar estes links: [www | www | www]

"Mesmo aprendendo bastante coisa, ainda tem muita merda internalizada. Eu me pego nessa ideia de que uma mulher trans é na verdade um homem roubando espaço - não é algo que eu acredito, mas meu cérebro ainda tá acostumado lá no fundo a ver dessa forma, a ver o "homem" na mulher trans, e quando eu não estou atenta, isso orienta o que eu sinto e a minha opinião. Isso é algo, aliás, muito comum. É fácil dizer que racismo é ruim, ou homofobia é errado, mas o racismo e a homofobia e a transfobia estão enraizados na nossa forma de pensar, é aí que entra a desconstrução, eu acho. É algo além de fazer uma afirmação óbvia. É ir no fundo, buscando essas raízes e cortando. Só que quando a gente faz isso, muita coisa desaba porque muito do que nós pensamos, está sendo sustentado nisso. Então, talvez, a gente precise se desconstruir, mas também reconstruir. tá, foda-se.

O que importa é que eu tinha lá esses preconceitos, que me levavam a incertezas e suspeitas. Então eu fui buscar a opinião de pessoas trans sobre o assunto.
  • A crítica era especificamente sobre a Woman's March. Woman's March. A Marcha da Mulher. Mulher. O que tem isso? Coisas como ter útero, menstruar, vagina - são parte da experiência só de algumas mulheres (e nem só mulher cis, porque tem mulher cis que também não se encaixa nesses ideais). Além disso, nós vivemos num mundo transfóbico/cissexista do caralho onde já parte do pressuposto de que essa é a experiência universal da mulher. Então quando você junta as duas coisas, existe, sim, um reforço de que a ideia de que só existe esse tipo de mulher e ele é o Verdadeiro™. Se fosse uma Marcha LGBT ou uma para "Mulher LGBT", que só fala de lésbica e reforça a vivência lésbica - eu não ia pensar duas vezes em apontar o apagamento da bissexualidade/pansexualidade. Ainda mais porque existe já a ideia de que bissexualidade não existe de verdade e ou você é hétero ou você é homossexual. Então, sim, se fazem uma Marcha da Mulher LGBT que ignoram a existência da mulheres bissexuais e cartazes que apenas afirmam ser lésbica como a única forma possível, eu ia criticar. Por que eu não criticaria isso da Woman's March? Por que eu não considero a vivência da mulher trans real o bastante como mulher? Provavelmente era isso que tava acontecendo.
  • Não era sobre todos os cartazes de Pussy. Um dos comentários é que o "Pussy Grabs Back" (em resposta ao que o Trump falou sobre grab as pussy das mulher) tinha contexto, já que essa marcha era até em revolta a presidência dele e a frase virou um grito de guerra/resistência. E acho (não sou uma pessoa trans pra dizer o que é transfóbico), mas acho que não era tão problemático. O tenso mesmo eram os outros, chapeuzinho de vagina e tal, que reforçavam a ideia de que ser "mulher" é ter vagina. (obs: e o comentário de "grab her by the pussy" do trump também afeta as mulheres trans)
  • Contexto importa. Uma pessoa trans que eu li comentando o assunto, até fala "Se fosse algumas pessoas com um cartaz teria problema? Provavelmente não. Agora um monte? Provavelmente sim. Porque quando se trata de uma marcha, ninguém vai olhar individualmente cartaz por cartaz, o que fica é a imagem completa e, com intenção ou não, a imagem completa que a Woman's march deixou é que esse é o tipo Válido™ de mulher." A pessoa também fala que em uma marcha focada em questões específicas, os mesmos cartazes seriam ok, porque são sobre o assunto em si. E que o objetivo não é dizer que mulher que tem vagina não pode falar abertamente sobre ter vagina ou útero, nem que fazer isso é transfóbico, é só o contexto da marcha mesmo. Até deu uns exemplos de moderar isso acrescentando aos cartazes coisas que poderiam quebrar a ideia cissexista que iguala vaginas etc a ser mulher.
  • Curiosamente, em paralelo eu li uma entrevista com uma mulher indígena falando sobre o racismo e desrespeito que sofreu na marcha, onde ela também comenta da transfobia. E teve uma entrevista com umas mulheres de filme que basicamente silenciaram uma ativista negra falando da própria experiência, e ela ainda comentou da questão trans (mesmo sendo cis também). Eu acho que talvez elas entendam o que as mulheres trans estão dizendo, porque elas também enfrentam o mesmo problema da versão de mulheres brancas sendo considerada a versão Universal™ do que significa ser mulher. O termo "White feminism" tá aí pra discutir isso."

Outros tópicos
O último ponto da questão trans já mostra como as interseccionalidades são importantes e como há muitos outros assuntos à mistura. Então vou, para deixar o post mais completo, mencionar brevemente vários deles:
  • A violência da polícia: Já comentei a ironia de como as pessoas brancas confraternizaram - ao ponto de agradecer e tirar selfies - com a polícia, como afronta ao movimento #BlackLivesMatter. Mas o mais irritante foi o protesto ter sido elogiado e chamado de progressista por ter sido pacífico, em comparação com protestos feitos por pessoas negras, pessoas queer... É triste, porque isso reforça a ideia de que alguns protestos se tornam violentos ou terminam com pessoas presas por culpa de quem protesta, quando é a polícia que não está treinada para lidar com minorias e acaba reagindo mal por impulso ou despreparação. Mais informação importante [neste post].
  • Proteção de trabalhadoras de sexo: Janet Mock, uma mulher trans de cor com um background como prostituta, fez um discurso interseccional mas teve a linha "...and we stand in solidarity with sex workers' rights movements" trocada por uma que confunde trabalho de sexo com tráfico de sexo, aparentemente um problema já enraizado no feminismo [www]. Esse link traduz o apagamento e a frustração de muita gente que se prostitui, que estão fartas de serem encaradas como alguém que tem de ser salva - precisam é de respeito, de ser protegidas da violência e abuso (da própria polícia) e reconhecimento, seja por terem escolhido esse caminho, seja porque o percorreram por necessidade. Não devia ser tabu nem vergonha reconhecer a experiência e trabalho delas, aliás, em teoria um dos propósitos da marcha era declarar o direito de todas as mulheres decidirem sobre o que fazer com o próprio corpo. Mas leiam o link, não é muito longo e capta o espírito das críticas. 
  • Populações indígenas: Vi poucos posts especializados neste assunto - apenas estes [www | www] - e confesso que não sou a pessoa mais adequada para falar deste tópico. Mas mesmo eu estou informada que chegue para reconhecer o desprezo por parte das mulheres brancas que silenciaram pessoas nativo-americanas quando estas tentaram protestar pela dificuldade de obter água, mencionar outras lutas que vivenciam e tornar a sua cultura um pouco mais visível com cânticos e assim. Se pessoas brancas não conseguem compreender as dificuldades e necessidade de comunidade para pessoas indígenas, pelo menos assumam uma atitude humilde de quem está disposto a aprender, em vez de se rirem e questionarem perante uma cultura e realidade diferente. Ou seja, não sejam como as pessoas do segundo link.
  • Pessoas com deficiências (e não só): Este [primeiro link] menciona como a experiência de pessoas com deficiências foi um pouco invisibilizada na women's march, enquanto [este] trata de como elas deram a volta à questão. Pessoas com doenças, deficiências e outras incapacidades foram literalmente tratadas como "fardos" de quem mulheres são obrigadas a cuidar, não reconhecendo que elas também podem ser mulheres e minorias e fazendo essas pessoas sentirem-se culpadas por serem quem são. Foram esquecidas em muitos parágrafos importantes da página do evento, ou mencionadas da forma errada. Nenhuma organização para pessoas com deficientes foi incluída na lista de contribuidores, e pode-se dizer que as pessoas foram levadas a acreditar que seriam incluídas, mas que isso não passou de palavras bonitas...
  • A questão do véu: burqa, hijab... eu tentei aprender a diferenciar isso reunindo várias imagens e definições [nesta] - demorei séculos a montar isso. Mas comecei a pensar na questão após ver [este post]. Lembro-me de ter ficado feliz quando vi uma mulher com um véu entre os cartazes icónicos da marcha, e sei que muitas mulheres que se revém nisso ficaram felizes e têm orgulho nesse seu símbolo. Cultura, religião, comunidade... HÁ de facto quem use o véu por escolha própria, por uma multitude de razões, e que o encare como uma afirmação da sua identidade. Mas é importante, como dito nesse link, lembrar que ainda há muita gente que não tem a oportunidade de escolher. Os hijabs DEVEM ser um símbolo de liberdade, mas esse ainda não é um estado universal. É importante empoderar o símbolo sem espezinhar a realidade de massas de outras mulheres.

Aqui uma citação do post mencionado no tópico da violência policial:
"There was understandable frustration and resentment toward some attendees at the Women's March from communities who have been doing the work on the front lines of social justice movements for years, and under significantly more dangerous circumstances that the Women's March on Washington. Black women, queer folks, disabled people, et al existing at the intersection of multiple marginalized identities have been setting up the framework for this kind of activism for a very long time, only to be discredited, silenced, excluded, and betrayed in the execution of this large-scale event. White women who had never been to a protest before were showing up to this one, performing resistance, and taking all the credit, while forgetting to listen to and take their cues from the people who have already been on the front lines, making this possible for them."

"No one wants to feel like a bad person. Finding out that you might be harming people simply because you have been oblivious to them and their needs is a hard truth to confront." - Cooper

Concluindo: Historicamente, mulheres negras, mulheres queer e lgbt+, profissionais de sexo, mulheres com deficiências ou neurodivergências, entre outras, contribuíram para tornar o feminismo esse movimento praticamente mainstream que vemos hoje, colaborando de livre vontade, para depois feministas cis brancas classe média usarem a atenção que receberam para combater exclusivamente os problemas que elas vivenciavam (como desconstruir o estereótipo da dona doméstica e outros). E é necessário impedir que a história se repita nesse aspeto. Feminismo deve lutar por toda a gente, não apenas por quem está mais próximo de alcançar direitos e reconhecimento. Feminismo deve ser solidário e inclusivo.

Creio que consigo entender bem a frustração que é, pois com o movimento lgbt+ aconteceram coisas semelhantes. Não basta que se tenha chamado "movimento gay" por muito tempo, bissexuais sempre ajudaram na luta, mas a comunidade homossexual (depois de ter conseguido atenção e direitos mínimos) diz ainda hoje que "nunca viu bissexuais a ajudar" quando o ativismo bi é um dos mais ferozes, a comunidade gay usa e abusa dos nossos resources e muitos bissexuais até abdicaram da sua identidade, fazendo de conta que eram gays e lésbicas, para fazer parecer que a comunidade homossexual era mais numerosa do que na realidade era (talvez seja por isso que ainda hoje muita gente ache que a bissexualidade não existe - assumem que somos gays ou héteros com base nos relacionamentos presentes e estamos marcados na história como sendo de uma dessas binárias). Esse é um tópico que quero explicar melhor e com as devidas fontes num futuro post, transpondo-o para o que aconteceu bastante com a comunidade trans (que só é lembrada para acusar bissexuais de transfobia, apesar de historicamente a comunidade bi sempre ter sido uma das maiores apoiantes da comunidade trans), e para o que está a acontecer agora com a comunidade ace (basicamente o "discourse" contra assexuais é bifobia reciclada). Ok, fica para o próximo post. Estou a pegar pesado na representatividade, não estou? 

Enfim, vou ficar por aqui. Espero que não estejam já enjoades de me ouvir falar disto ^^

4 comentários:

  1. ANY-CHAN EU PODERIA COMEÇAR ESSE COMENTÁRIO ELOGIANDO O QUANDO TU CONSEGUE ME ENSINAR COISAS NOVAS, MAS EU TÔ PRECISANDO COM URGÊNCIA SURTAR COM ESSA IMAGEM SPOILER DE AKATSUKI NO YONA (https://pbs.twimg.com/media/C6EAK4gXMAAm8qL.jpg) ELES TÃO SE BEIIJJJJAAANNNDDDOOO PORRA CARALHO PUTA MERDA A YONA TÁ DANDO MÓ BEIJÃO NO HAK, MEU DEUS EU TÔ URRANDO COM ESSA IMAGEM, SAÍRAM UNS SPOILERS DELÍCIA E EU TÔ CHORANDO MUITO COM ISSO PORQUE EIIITTTAAAA CASAL QUE ME FEZ DE TROUXA, MEU DEUS EU TÔ PASSANDO MUITO MAL!

    Okss, agora recuperando o fôlego e partindo pro post:
    Bem, e quando eu pensava que já tinha aprendido um monte de coisas contigo e já tinha visto de tudo EU DESCUBRO QUE TEM MUTRETA DENTRO DO PRÓPRIO FEMINISMO QUE NÃO SEJA CONTRA AS FEMINISTAS RADICAIS. Sério, já parou pra pensar que esse mundo anda muito louco!? Depois de anos batalhando por liberdade e uma vida melhor, era para o ser humano estar nesse nível (https://twitter.com/i/web/status/837706560465940481), mas aí a gente percebe que estamos no meio de umas briguinhas a lá guerrinha de fandom de anime, em que é branco x negro, mulher x homem, hétero x lgbt+, feminista x machista e aí dentro dessas guerrinhas HÁ MAIS GUERRINHAS, feminista de boas x feminista radical E AGORA EU DESCUBRO QUE TEM NUMA MARCHA DE MULHERES MULHER X MULHER, eita que tá difícil chegar em algum lugar, hem! Como diria um meme brasileiro (https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/51/df/b6/51dfb6b2d08311ea92d709a60b5c72d9.jpg), não que seja errado ou ruim batalhar por direitos, mas eu tô vendo que ultimamente é tudo briga e mais briga, eu sinto como se algumas pessoas estivessem se desviando do objetivo real para ficarem discutindo coisas, que muitas vezes nem fazem muito sentindo, tipo aquela história da pessoa postar a sua opinião no facebook e brotar gente do além fazendo textão xingando a opinião da pessoa (e é por isso que eu amo o canal br Cadê a Chave, já fiz propaganda dele aqui, mas vou fazer de novo, porque o casal que apresenta os vídeos são uns amores e sabem expor a opinião deles de maneira maravilhosa e sem ficar atacando outras opiniões ou pessoas). Enfim, acabei desviando bastante do assunto principal, mas eu só estava precisando desabafar sobre as brigas radicais que andam tendo por aí.... Sério, eu ainda tô bem chocada com esse problema entre mulheres brancas e de outras origens étnicas NUM MOVIMENTO DE MULHERES. Infelizmente sobre os problemas com pessoas trans eu não me espantei tanto porque eu acho que tu já havia mencionado algo em algum lugar (acho que num post sobre feminismo), aliás, é meio estranho esse ranço que algumas pessoas tem porque na cabeça de algumas pessoas uma mulher trans num é mulher porque no meio das pernas tem uma vareta ao invés de um buraco, porque a pessoa tem que ser biologicamente mulher, mas aí um homem trans também não é mulher porque não se comporta como uma, mesmo tendo um útero, vagina e tendo que sangrar todo o santo mês, MINHA GENTE DECIDAM-SE O QUE VOCÊS QUEREM DA VIDA. É que nem uma piadinha que eu vi no twitter dizendo que ninguém se preocupa se um vegetariano tá comendo ou não carne, então que era para as pessoas pararem de se preocupar quem o "fulaninho tá deixando de comer ou não", que se fulaninho tá comendo outro fulaninho, FODA-SE, que se fulaninho tá comendo uma fulaninha FODA-SE, que se fulaninho tá comendo uma fulaninha que na verdade é um fulaninho FODA-SE.... Enfim, onde diabos eu estava mesmo!?

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    1. Lendo o parágrafo sobre a violência da polícia me lembrei que eu já vi gente comentando na internet (acho que num vídeo do tiozão youtube) que quando ia viajar para os estados unidos cortava a barba com medo da polícia parar achando que fosse algum tipo de muçulmano ou terrorista. E também outra coisa que ouvi, é que se a polícia te para e pede para você os seus documentos é recomendado que a pessoa fale para o policial que vai colocar a mão dentro da bolsa para pegar os documentos, caso contrário eles podem achar que tu vai sacar uma arma e vir para cima '-' Sei lá, os caras exageram bastante e em manifestações é o melhor lugar para gerar mutreta, ainda mais que sempre tem uns filhos da puta de má fé que só vão pra causar confusão e aí depois quem paga o pato são as pessoas que tão manifestando e aí são elas que saem como se fossem as culpadas ou violentas =/ (pelo menos por aqui quando há manifestação, em algumas aparece gente de má fé depredando lojas e a rua num geral)

      Sobre a questão do véu, minha mãe é da opinião que ele deveria ser tirado logo, pois já trouxe muito sofrimento para várias mulheres, por um lado eu concordo com isso, porque ainda há tantas mulheres submissas que não conseguem ter a sua liberdade nem na hora de se vestir. Mas, tem também aquele raciocínio de que hoje em dia nós usamos tantas coisas e tecnologias que surgiram através da guerra que foi algo que trouxe um puta sofrimentos, mas tiveram seu significado mudado, que eu fico pensando que se talvez o significado do véu mudar com o passar dos anos não tenha problemas em usar ele se a pessoa curtir. Enfim, mas falando em véu, isso me lembrou de uma história bem triste que eu vi esses dias na internet, mas era sobre o turbante, vi umas pessoas condenando algumas mulheres brancas que usavam turbante, mesmo que essas mulheres sofressem de câncer e estivessem fazendo isso para tentar lidar melhor com a situação e se sentirem mais bonitas (acusaram elas de apropriação cultural). Acho que é esse tipo de extremismo que passa a imagem errada sobre a batalha de algumas minorias e acaba gerando toda essa confusão e brigas =/ Aliás, té vi um vídeo de uma angolana falando sobre isso (acho que foi no facebook, mas acabei não guardando o link ç-ç)

      "Espero que não estejam já enjoades de me ouvir falar disto" CLARO QUE NÃO, TU É MINHA FONTE DE INFORMAÇÕES E CONHECIMENTO XD Enfim, é bem triste que um movimento tão grande tenha tido os seus problemas, mas pelo menos o povo não tá ficando calado pelas coisas que o Trump diz, acho que isso já é pelo menos uma coisa boa. Mas, confesso que ainda estou chocada com a história do feminismo, nem fazia ideia de que havia essa mutreta toda no meio e muito menos que tinha gente falsiane pra aceitar ajuda dos outros e depois na hora de conseguir seus direitos abandonou essas pessoas que ajudaram... SÉRIO, EU AINDA NÃO CONSEGUI DIGERIR O QUE EU ACABEI DE LER E ACHO BEM DIFÍCIL EU CONSEGUIR DIGERIR ISSO HOJE, cara é aquele tipo de coisa que sei lá, aliás até hoje eu tô digerindo essa história de mutretinha dentro do próprio grupo lgbt+, na boa eu NUNCA imaginaria que houvesse treta com bissexuais e assexuais (aliás, se não fosse por ti eu nem sequer iria imaginar que existisse pessoas assexuais), é por isso que o seu humano mesmo sendo um filho da puta as vezes ao mesmo tempo é algo fantástico, porque há tanta coisa numa única espécie que eu algumas vezes paro e penso "CARALHO MANO" shaushuashuashaushau

      Kiss

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    2. Deixando aqui para as pessoas verem e antes de responder a tudo o resto (EU NÃO SABIA DESSE SPIOILER DE ANY!!!!), aqui um post que aderessa precisamente a questão da apropriação cultural, turbantes e a moça com cancro: http://www.conversacult.com.br/2017/02/turbantes-apropriacao-cultural-e.html

      E sinceramente? Eu não acho que seja extremismo. Eu ia, lá está, falar disso num futuro post, mas o facto de muita gente (especialmente mulheres negras) terem atacado essa moça com cancro por ter usado turbante não foi a sua atitude enquanto indivíduo - afinal, ela em particular tinha cancro - mas a frase de desafio que a moça disse, "vai ter branca de turbante sim". Porque apropriação cultural ocorre quando símbolos de resistência de uma minoria são mal vistos durante imenso tempo pelas pessoas a quem esses mesmos símbolos pertencem - trazendo violência e preconceito contra quem os usa - mas que um dia a indústria torna isso nu objeto popular (por exemplo, através da moda) que as maiorias podem usar de forma fútil para se sentirem bem, despojando o símbolo do significado original. Para piorar, apesar de o símbolo ser internacionalizado, na verdade ainda assim só é bem visto se usado pela maioria, porque usado pela minoria continuará a ser má fama. O turbante é apenas um exemplo entre milhares, mas enquanto o meu post não está pronto, veja esse link ;) E sim, as guerrinhas acabam distraindo as pessoas das coisas "realmente importantes", mas isso não significa que não tenham uma base importante em si. Às vezes, o que parece um extremismo e uma luta à custa de um pormenor por parte de uma minoria tem uma origem muito profunda e associada a uma história de opressão, e a questão do turbante é uma dessas. Então eu não quero chamar de guerra de fandom - apesar de entender o que você quer dizer com isso - à indignação das pessoas negras que protestam contra brancas usando turbantes porque isso ignoraria as raízes e dimensão da questão, os imensos assuntos aos quais ela se conecta, e desvalidaria a dor das minorias que já têm muitas vezes a sua voz reduzida ou ignorada ou distorcida. Na verdade, a grande crítica à women's march foi essa: foi tratarem questões poc como detalhes, como querer arranjar briga entre aliados, e não querer ouvir o que as pessoas realmente tinham a dizer e aprender com as críticas.

      Quanto ao véu, esse significado distinto já existe. E pode dizer isso à sua mãe ^^. O véu JÁ NÃO É um símbolo de opressão, muitas mulheres que o usam NÃO o fazem por ser obrigadas, às vezes nem mesmo nas terras de origem dele. ALGUNS casos realmente são obrigatórios, e isso deve acabar, pois ninguém tem o direito - seja pela razão que for - de policiar o que alguém veste ou deixa de vestir. Mas não é o véu em si, e sim essa obrigação, nos casos em que ainda existe.

      Pronto, depois comento mais :3

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    3. AAATAAAAHHHHHHH AGORA EU MANJEI! Não tinha visto por esse lado ainda, eu imaginava que essas "brigas mais extremistas" brotassem por exagero das pessoas mesmo, não sabia que mesmo assim tivesse alguma ligação ou história mais profunda, principalmente essa do turbante! Na minha cabeça eu achava que não havia problema já que hoje em dia a cultura negra num geral tem se espalhado mais, principalmente na moda (assim como o crucifixo que agora é usado em anel, brinco, roupinha e por aí vai), por isso acabei ficando meio assustada com a notícia, até porque tem tanta coisa que a gente usa no dia a dia que na verdade tem outras origens e que foi se misturando no cotidiano, que eu estranhei porque atacaram a mulher branca de turbante. Mas, eu não sabia que tinha algo mais profundo por trás. Aliás, acho que isso até me fez compreender melhor um vídeo que tu linkou num post sobre apropriação cultural. Sem mencionar que eu até me esqueci sobre " minorias que já têm muitas vezes a sua voz reduzida ou ignorada ou distorcida", tenho que prestar mais atenção, porque muitas vezes eu me esqueço que mesmo tendo espaço para falar, como nessa marcha que aconteceu, nem sempre todo mundo acaba conseguindo falar e / ou acaba tendo o ponto de vista distorcido, aliás, isso até me fez parar pra pensar se talvez algumas dessas brigas que eu considero extremista na verdade não seria apenas "uma boa causa espalhada de maneira equivocada / distorcida", como a parada sobre o feminismo ser o oposto de machismo ou ser contra os homens......Nossa, como diabos eu ainda não tinha pensado nisso! '-'

      Sobre a parada do véu eu nem sabia! Quero dizer, tu já mencionou sobre isso, mas não sabia que ultimamente já estava mais liberal, ATÉ MESMO NO LUGAR DE ORIGEM DELE, e isso é realmente uma ótima notícia! Porque é realmente ruim ver que ainda existem lugares tão opressores, não apenas com a mulher, mas com a população num geral (como na Coréia do Norte, até saiu num canal de tv aqui um documentário que parece ser muito bom! Eu ainda vou ver se acho na internet para assistir, pois ele mostra o quanto as pessoas são reprimidas lá e possuem medo do louco que tá no poder). Enfim, voltando a história do véu, acho que é que nem um professor de filosofia meu disse: Que tudo o que a gente vê no mundo não passa de conceitos, por mais material que algo seja, no final é o conceito que a gente atribuiu a determinada coisa que vale, então acho que se mudar o conceito do véu de algo ruim para algo bom, ele pode se "transformar" em outra coisa e se tornar algo positivo... Enfim, brisas de filosofia que eu estou tendo na faculdade '-'

      Enfim, obrigada por ter esclarecido algumas coisas e Kiss O/

      ~sinto que ia comentar mais alguma coisa.... AH, CLARO AKATSUKI NO YONA~ MUAHAHAHAHAHAHA SSSSIIIMMMMM TÁ ROLANDO MÓ IMAGENS E SURTOS NO TWITTER, mas pelo visto os surtos já chegaram no facebook também e eu TÔ MUITO LOUCA PRA ISSO! Meu deus, fiquei sabendo também que a Yona finalmente se livrou daquela presilha do Soo-Won, e eu tô dando glória pra tudo quanto é lado. Eu sei lá, tenho um amor e ódio pelo Soo-Won, não sou muito fã dele, mas admiro a construção que o personagem está tendo, e eu ainda acho que ele não mataria o pai da Yona a sangue frio, sei lá... TEM COISA MAL EXPLICADA NISSO

      Okss, agora sim eu tô indo

      Kiss

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