Espaços para certos géneros - tipos e lembretes


Tenho a certeza de que vocês já ouviram falar de "women's spaces". Contudo, provavelmente já se perguntaram até que ponto pessoas de outros géneros os podem visitar, se são inclusivos de pessoas trans e se utilizam a palavra "mulher" como género feminino ou sexo feminino. A verdade é que imensa gente faz uma grande caldeirada, e esse termo pode significar coisas muito distintas dependendo de quem o usa. Por outras palavras, devia significar que era um espaço para mulheres cis e trans (e eventualmente pessoas não-binárias que também se conectam com o termo mulher), incluindo as experiências de pessoas de todos esses grupos, já que "mulher" é um género e portanto são mulheres pessoas que se identificam como tal. Maaaaas todo o tipo de espaços são válidos, e portanto irei, neste post, explicar porquê que todos os espaços voltados para pessoas de certos géneros e sexos se justificam e não roubam nada de ninguém - incluindo espaços para mulheres cis - e indicar que nomes deviam ser dados para cada tipo de espaço existente de modo a evitar confusões. Créditos principalmente a [este post], embora eu tenha coisa a acrescentar, e precisamente por isso é que decidi fazer este artigo.

Tipos de espaços
Vale lembrar que os nomes indicam não quem é que pode entrar no espaço (pelo menos, não necessariamente), mas quem é que terá lugar de fala e a sua opinião ouvida nos grupos. Então, os tipos de espaços existentes são os seguintes, e mesmo que não tenham esses nomes, deviam ter:

Mulheres cis

  • Espaços para pessoas designadas mulheres à nascença e que se identificam com o género que lhe foi atribuído. Destinados a falar da intersecção entre ser do sexo feminino e das experiências que isso acarreta com a identificação com o termo mulher e experiências resultantes de ser lida como tal. 
  • Alguns desses espaços são dominados por TERFs - Trans Exclusionary Radical Feminists [mais sobre o assunto] - e insistem que só "mulheres biológicas são realmente mulheres" ou que só "pessoas socializadas como mulher é que são realmente mulheres". Mas nem todos os espaços para mulheres cis espalham ideologia TERF. 
  • Temas geralmente debatidos pela perspetiva dessas pessoas: aborto, menstruação, relacionamentos, papel de género, mulheridade, socialização como mulher, identificar-se como mulher e sentir-se bem com o seu corpo apesar das injustiças sociais e físicas...

Mulheres binárias

  • Espaços para mulheres cis e trans, porém, de entre pessoas no espectro trans, excluem mulheres não-binárias e/ou pessoas não-binárias que se identificam significativamente como mulher. Normalmente isso é feito com o propósito de poder falar sem a preocupação de usar uma linguagem neutra, tratando as pessoas como "meninas" e falando constantemente de #girlpower ou outras coisas que poderiam deixar pessoas não-binárias mais desconfortáveis.
  • Temas geralmente debatidos pela perspetiva dessas pessoas: mulheridade, ser mãe, discriminação de género, relacionamentos, sororidade...

Pessoas que se identificam como mulher de forma significativa

  • Adicionalmente a mulheres binárias, estes espaços também acietam pessoas no espectro não-binário que se identificam, pelo menos às vezes, significativamente com o termo mulher. Há uma tentativa de usar linguagem mais inclusiva, apenas não dirigida propriamente a homens. 
  • Os temas debatidos são, apesar de tudo, os mesmos que os de cima, eventualmente com a adição da experiência de se ser uma mulher não-binária

Mulheres e pessoas não-binárias / Sem homens

  • Não só aceita, para além de mulheres, pessoas não-binárias que se identificam também como mulher, como aceita pessoas não-binárias em qualquer parte do espectro. Reconhece que há problemas comuns com que tanto mulheres como pessoas não-binárias com qualquer corporalidade têm de lidar. Apenas não permite homens, e destina-se frequentemente a ser um espaço que permita falar de certos temas sem correr o risco de se ser interrompido para não ouvir um óbvio #NotAllMen
  • Temas geralmente abordados são discriminação de género, masculinidade tóxica, patriarcado,... abordam alguns temas femininos e trans, mas aquilo que dá para garantir é que é um espaço longe da identidade masculina

Pessoas afab - designadas mulheres à nascença

  • Aceita tanto pessoas cisgénero como pessoas trans em qualquer parte do espectro, o único requisito é que tenham sido designadas mulheres à nascença, havendo uma incidência na questão da corporalidade e da discriminação de sexo. É usada uma linguagem inclusiva, mas deixando claro que o corpo vai ser um aspeto proeminente nas discussões. 
  • Aborda consequentemente temas como discriminação de sexo, aborto, gravidez, saúde reprodutiva, menstruação, mutilação genital, relacionamentos...

Pessoas binárias

  • Convidativo para homens e mulheres, sejam cis ou trans. Refere-se às pessoas nesse espaço como "homens e mulheres" e utiliza uma linguagem claramente binária. 
  • Aborda qualquer tipo de tema, exceto questões que digam respeito exclusivamente a pessoas não-binárias. Foco na questão da desigualdade de género e, eventualmente tambem, de sexo. 

Pessoas que não sejam homens cis

  • Espaços convidativos para qualquer pessoa, desde que não seja um homem cisgénero - destinados precisamente a abordar a experiência de pessoas que tenham vivenciado discriminação de género e/ou sexo de forma significativa, seja por causa do corpo com que nasceram, seja por causa da socialização, seja por conta da maneira como o seu género é encarado  
  • Ou seja, qualquer dos temas mencionados acima. Poderão ou não ser mencionadas certas formas de discriminação contra homens - como serviço militar obrigatório - até porque há homens incluídos no espaço, mas não de uma perspetiva cisgénero. Mas o debate pode direcionar-se apenas a questões comuns a várias pessoas que afetam necessariamente mulheres cis, apenas sem implicar que quem tem essas experiências o é.

Pessoas de identidades culturais

  • Não se vê muito no ocidente, mas pelo menos onde identidades (de género e não necessariamente só) especificamente culturais existem, esses espaços esão lá. Por exemplo, na índia há uma terceira categoria de género oficial, Hijira ou Hijra, e Hijras costumam até viver em casas ou centros só para pessoas como elas. 
  • Dependendo da identidade e cultura em questão, os temas abordados podem ser muito distintos.

Qualquer pessoa

  • Como indicado, o género e o sexo da pessoa não interessam, sendo a linguagem inclusiva (aka verdadeiramente neutra)
  • Qualquer tema relacionado com género, sexo ou outros pode ser abordado. São abordados temas comuns a toda a gente, como aderência a estereótipos e expressão de género.

Notas relevantes
Não há problema em ter um espaço até mesmo só para mulheres cis e para falar de como aspetos comuns à vida de pessoas designadas mulheres à nascença impactuam a vida de quem, de facto, se identifica como mulher! Os problemas são quando:
  • Um espaço designado "de mulheres" se limita a falar da experiência de mulheres cisgénero, não incluindo mulheres trans como se não fossem realmente mulheres. 
  • Um espaço designado "para mulheres" denota claramente que está a incluir pessoas que não se identificam como mulheres nessa categoria contra a sua vontade.
  • Um espaço que em teoria abrange mais géneros ou questões trans, na prática, tropeça nas palavras e não faz realmente aquilo que prometeu, sendo inclusivo e respeitando a identidade, pronomes e tudo o mais das pessoas que convida.
  • Um espaço que tenciona questionar e distanciar-se do patriarcado torna implícito que só mulheres é que são atingidas por esse sistema.

Também é um problema quando espaços que incluem pessoas de vários géneros, no nome, são classificados como "Women space" só para abreviar - ou sejam o segundo ponto mas cometido intencionalmente. Sim, eu consigo perceber que prolongar o nome possa soar menos bem, mas se isso não for feito, pessoas não-binárias ou seja lá quais forem as pessoas desejadas a incluir irão ser consideradas mulheres por quem assume que toda a gente que pertence ao grupo é mulher, uma conclusão que, dado o título, até faz sentido. Isso é muito invalidador e poderá ser suficiente para afastar pessoas que se desejam num espaço inclusivo. Sinceramente, é a principal razão pela qual eu evito espaços desses que na prática tentam incluir pessoas como eu...

Muita gente acusa mulheres trans de estarem a invadir "women's spaces", mas eu acho que elas fingem que não percebem que mulheres trans não estão a invadir nada - porque também são mulheres. Mulheres trans não estão, também, a tentar acabar com espaços exclusivamente cisgénero - vá, talvez algumas - nem a tentar abafar a voz e experiência das mulheres cis. Elas apenas vão ao engano porque alguém decidiu chamar um espaço - virtual ou real - de espaço "para mulheres" e não "para mulheres cis". Caramba, é uma palavra, não dói assim tanto e resolve TODOS os problemas... 


Hum... O post que creditei no topo diz mais algumas coisas, embora deva ter dado a entender pelo que eu escrevi que não concordo a 100% com tudo, mas ainda é uma leitura que vale a pena. O principal eu já disse, e vou terminar por aqui porque a minha mãe decidiu que quer ver os filmes de Harry Potter em condições, e agora vamos ver o segundo >.<

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