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{vocês sabem que não resisto a gifs aleatórios}Pesquisando mais sobre o assunto, vi que o problema ainda se mantém. O artigo já mencionado e [este] denotam que há série de "desculpas" que políticos (e outras pessoas que deveriam estar responsabilizadas por realizar censos e elaborar estatística sobre o racismo em Portugal) usam para não proceder ao estudo da questão racial. Então abro o post apresentando as razões, e os meus respetivos contrargumentos, que foram dadas para deslegitimar a necessidade deste.
- A raça é uma construção social» Essa noção fez-me lembrar-me como na questão de identidade de género, se diz também que género é uma construção social, algo com que eu concordo, mas isso não muda o facto de serem caraterísticas com impacto na vida das pessoas. Especialmente coisas que podem ser "detetadas" de forma externa ao sujeito, uma vez que a cor da pele é normalmente algo visível e que, portanto, pode ser usada como base para discriminar. Ao ignorar a questão, está-se a tomar o lado do opressor, pois isso permite não ter dados para comprovar que discriminação racial existe e portanto não ter razões para combater o problema.
- Somos todos a mesma raça» Dizer que "somos todos humanos" ou que "eu não vejo cor" é uma forma de racismo por si só, chamada colorblind. Tal como o ponto acima, isso contribui para fechar os olhos ao facto de que a discriminação racial existe, desvalidando as experiências de pessoas POC e assumindo uma atitude de desresponsabilização pois "Se não há raças, não há racismo". É uma forma de negar o problema e, consequentemente, negar a necessidade de o combater.
- Não há concordância se a palavra a que deve ser usada é raça, cor ou etnia» Essa é a desculpa mais esfarrapada, pois até agora nunca ninguém deixou de fazer nada por conta de uma palavra. Mas certo, linguagem é importante e respeitar aquilo que as pessoas consideram representativo do seu problema é relevante. Nesse caso, porque não inventar uma sigla tipo lgbt+? Há milhentas formas de contornar essa questão.
- Seria difícil classificar pessoas de raça mista (birraciais)» Na verdade, não seria assim tanto. Poder-se-iam criar estudos especificamente para quem é birracial, que também sofrem preconceito, mas de forma um pouco distinta. Se não, era só uma questão de considerar a identidade da pessoa. Será complicado se a própria pessoa não souber - por exemplo, estou a lembrar-se dos comentários em que a Hina-clone diz que nunca sabe se se deve ou não considerar branca - mas se a pessoa sofrer discriminação e quiser ajudar no estudo, provavelmente irá identificar-se com a sua origem poc. E se não tiver nenhuma origem branca? Aí não sei, por isso é que acho que seria melhor considerar pessoas birraciais à parte.
- Os dados podem ser apropriados negativamente» Isso é um perigo real e merece ser tido em conta, mas se isso fosse impeditivo para não se fazer algum estudo, então não seria permitido obter estatísticas de nada, pois todas podem ser aproveitadas para maus usos. Além disso, com certos censos (como os religiosos, creio) veda-se o acesso a entidades pouco confiáveis, e o mesmo poderia ser feito com esses. Os dados poderiam ser apenas entregues a organizações destinadas a trabalhar a questão, embora eu ache uma pena que informação tão importante se mantivesse inacessível ao público.
- O racismo não é estrutural e não há leis a perpetuá-lo» Talvez não de forma muito óbvia, mas o facto é que não há medidas que o impeçam de existir, e há questões (como o facto de poucas pessoas de cor fazerem faculdade) que deixam claro que o racismo ainda se encontra a uma escala larga suficiente para poder ser considerado estrutural, especialmente no que diz respeito a pessoas provenientes dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).
- Os dados poderão ser usados para reforças estereótipos, como o facto de as pessoas dos PALOP terem benefícios monetários» Como já mencionado, os dados podem ser apropriados negativamente e um exemplo disso seria, de facto, usá-los para atacar as pessoas e reforçar estereótipos. Mas também podem ser usados para combater essas noções. É verdade que separações podem contribuir para a ideia de que somos todos diferentes, mas a) ser diferente não é um problema e é até algo que deveria ser mais aceite b) ser diferente não tem de implicar, muito menos justificar, tratamento diferente a não ser que hajam necessidades específicas dentro de um determinado grupo c) essa é uma realidade e fugir dela não ajudará a que as pessoas se entendam e comuniquem.
- Os estudos feitos sobre imigrante (frequentemente não.brancos) já permitem tirar conclusões» Essas conclusões estão normalmente erradas, precisamente por extrapolarem tanto os dados e por equacionarem racismo a xenofobia. Muitos estrangeiros são perfeitamente brancos, vistos como tal e não sofrerão discriminação (racismo, pelo menos). Muitos estrangeiros são vistos como brancos, mas não o são realmente, e sentem-se invisibilizados. E isso também parte do princípio que pessoas de cor não são portuguesas, quando muitas vezes as próprias se identificam como tal e nasceram aqui. Esse é um problema que também se coloca na França, aliás, e que não tem como reconhecer as particularidades do racismo. São demasiadas coisas diferentes associadas e despachadas para uma única categoria, é óbvio que nunca permitirão ir à raiz do problema... -.-
Felizmente - e [esta notícia] é de 9 de Fevereiro - Portugal aprovou uma medida bem mais positiva que não só alarga o conceito de discriminação racial, como tem em conta interseccionalidade (ex: ser mulher e negra, que não só permite sofrer discriminação por ambos os aspetos, como isso se mistura numa forma de preconceito própria e numa experiência única), que nesse artigo foi chamada de multidiscriminação. As leis também passarão a ter uma atuação mais imediata no combate ao racismo.
E era isso por hoje ^^ O post foi mais pequeno que o costume, pois estou a reservar um conjunto de conceitos (como apropriação cultural) para futuros posts, numa espécie de guia genérico sobre racismo - creio que lhe podemos chamar assim. Fora que neste momento estou a investir num post de críticas e elogios à Women's march contra o Trump.
Jaa!






