O que significa ser a favor e contra o aborto?
- Ser a favor: Ser a favor da legalização/descriminalização do aborto, não condicionado ou não apenas como algo excepcional, mas acessível a toda a gente. Contudo, não significa dizer que toda a gente deva abortar ou usá-lo como substituição de métodos contraceptivos, e implica uma sociedade consciente e bem informada.
- Ser contra o aborto: Ser contra a legalização/criminalização e acessibilidade do mesmo, quando muito considerando situações excepcionais.
Nota extra:
Muita gente diz que o o aborto é uma questão feminina e que diz respeito às mulheres e à saúde delas, apenas. Isso é mentira. É uma questão feminISTA, não feminina, e apesar de ser verdade que homens cis (que se identificam como homens e foram designados tal) não devem roubar o local de fala de quem pode engravidar, não são só mulheres que podem engravidar.Os argumentos:
- Casos de violação: Diz-se que vítima não deve ser obrigada a ter o bebé. O problema nessa exceção? É extremamente difícil provar quando alguém é violado. Se uma pessoa o fosse e não tivesse como provar, seria obrigada a ter o bebé, e se não fosse necessário prestar provas, então qualquer pessoa abortar nem que inventasse isso como desculpa (ou seja, o aborto continuaria disponível a toda a gente e viria apenas a custo da sua honestidade). Ainda, há quem defenda que as pessoas não podem ser violadas por parceiros-íntimos ou pela pessoa com quem casaram, desconsiderando o fator consenso e dizendo que não é abuso se são um casal. Isso é alarmante considerando o número de pessoas que ficam grávidas porque os parceiros as obrigam, sabendo que isso é uma forma de as amarrar a eles, e que nada poderão fazer para provar que não foi consensual.
- Casos de má formação do feto: É verdade que há alguns casos mais difíceis de lidar e que os pais podem não estar preparados, mas qual seria o limite entre um bebé que pode nascer e um que não? Isso mete muitas novas questões éticas à mistura, e sinceramente, parece-me horrível que a sociedade considere aceitável que não se impeça alguém de viver não por falta de condições, mas porque não se considera aceitável ter um filho deficiente ou autista. Mais horrível ainda, historicamente sempre houve tentativas de prever quando é que crianças seriam "homossexuais", "transexuadas" ou "hermafroditas" (fiz questão de usar estes termos para salientar que estão errados ou são controversos, mas que muitas vezes ainda se usam dentro da comunidade médica - o correto seria dizer pessoas não-hétero, trans(género) e intersexo/intersexuais), precisamente para os pais poderem evitar lidar com "abominações".
- Casos em que a vida da pessoa grávida está comprometida: Ou seja, em que a falta de condições físicas poderá causar morte durante o parto, ou depois do mesmo. Mas para além de não ser 100% possível prever isso, essas previsões têm em conta apenas os fatores físicos, quando na verdade muitos outros poderão acabar ou arruinar a vida de alguém. Para piorar, há quem ache que gente que admite abortar deve morrer mesmo, então não se importam que a a pessoa morra para ter um filho, que morra num aborto clandestino ou que sofra imenso para abortar.
Dando exemplos concretos [deste post]:
"Na Roménia, em 1966 o aborto legal foi restringido e a taxa de mortalidade de mulheres grávidas causada por abortos clandestinos aumentou dramaticamente, tornando-se dez vezes mais alta que no resto da Europa. Em 1989 o aborto foi de novo legalizado quando pedido pela mulher, e a taxa de mortalidade de mulheres grávidas diminuiu drasticamente."
"A Holanda tem a taxa de aborto declarada mais baixa da Europa porque tem leis não restrictivas ao aborto, leis estas inseridas numa estrutura que inclui: educação sexual universal nas escolas, serviços de planeamento familiar de acesso fácil e fornecimento de contracepção de emergência. Dos 29,266 abortos realizados em 1997, a taxa de complicações no primeiro trimestre foi de 0,3%, e nenhuma resultou em morte."
- Países que legalizam o aborto preocupam-se com saúde reprodutiva, então há campanhas e o propagar de informação sobre métodos contraceptivos e formas de prevenir a gravidez, para além de uma maior dedicação em desenvolver os ditos métodos.
- Nesses países há também uma maior acessibilidade a centros de saúde (onde as pessoas se podem informar sobre o que será melhor para elas, as suas condições e como planejar um nascimento devidamente) e disponibilidade a métodos contraceptivos, que tendem a ser mais eficientes.
- Ninguém bem informado preferiria abortar a prevenir a gravidez, pois saberia que o primeiro é mais difícil e vem acompanhado de uma certa pressão psicológica (e eventualmente de dores físicas). Juntando isto ao julgamento e hostilidade que se vê por parte da sociedade, ninguém no seu perfeito juízo se assujeitaria a sofrer quando esse sofrimento é evitável. Quem julga que legalizar o aborto fará as pessoas "abortar por tudo e por nada" está simplesmente errado.
- Até aos 3 meses, o risco não é maior do que o risco de um aborto espontâneo, podendo haver dificuldades menores facilmente resolvidas por médicos.
- Menos de 1 em cada 100000 pessoas que fazem um aborto seguro morrem.
- Não dói mais do que dores menstruais.
- Há 2 tipos de abortos possíveis: o médico (ou seja, através de medicamentos) e o cirúrgico (dispensa explicações). Ambos são seguros e podem haver várias razões para alguém optar entre eles.
- O aborto médico pode ser feito em casa (até 7 semanas de gravidez) e consiste em tomar uma pílula, mas só é permitido até uma gravidez de 10 semanas. Tende a ser preferido porque pode ser feito longe de médicos, sendo mais privado e menos invasivo.
- Há vários tipos de cirurgias que dependem do estado de gravidez e que podem ser acompanhadas de formas de reduzir a dor (como anestesias locais). Tende a ser preferido devido ao acompanhamento médico que transmite uma sensação de segurança, para além de que algumas pessoas sangram menos e têm menos dores assim.
- O aborto clandestino é a opção de pessoas com poucas condições financeiras, pois quem tem dinheiro normalmente consegue marcações em clínicas privadas e em segurança, mesmo que o aborto seja criminalizado.
- A cada 9 minutos morre uma pessoa vítima de um aborto clandestino.
- Dos 42 milhões de abortos anuais, 20 milhões são clandestinos.
- A morte tende a ser causada por infeções, hemorragias, danos uterinos, efeitos tóxicos e outras causas usadas para induzir o aborto em ambientes sociais adversos.
- Há 54 países, ocupados por 25% da população mundial, que proíbem o aborto em qualquer circunstância. Esses países localizam-se maioritariamente na África, América Latina e Ásia.
Sim, toda a gente deve ter direito à vida. E é duro considerar que certas formas de vida tenham menos valor que outras, sendo este talvez o único ponto que me custe acerca do aborto. Mas mesmo que se considere que um feto tem vida, será que se pode considerar que ele tem consciência? E será que se pode considerar um ser humano enquanto não tiver consciência? Será que vale a pena insistir em deixar mais uma vida passar a existir à custa das que já existem? Será que vale a pena pôr a vida da pessoa grávida, e do próprio bebé quando nascer (
Isto dito, mesmo que o nascimento seja feito, nascer não é sinónimo de viver. Muita gente desconsidera ao se auto-proclamar pró-vida - ou seja, anti-aborto - que a maioria das pessoas que aborta tem poucas condições, e obrigar a um nascimento nesse caso poderá em vez de salvar a vida do bebé, comprometer a vida de 2 pessoas: dele, e da pessoa que estava grávida.
- "A mãe" pode não ter condições físicas para aguentar um parto. Muita gente já admite abortos nessa circunstância, mas apenas em risco de morte, não tendo tanta consideração por pessoas que sobrevivem ao parto e depois ficam afetadas para a vida toda. E se essa for a única pessoa a cuidar do bebé, as dificuldades físicas poderão a) exigir que dê mais atenção a si própria e nesse caso cuide mal do bebé b) tornar-se piores e levar à morte ou a uma vida miserável caso a pessoa se force a cuidar devidamente do bebé. Para piorar, se b for escolhida, a longo prazo não será mais possível cuidar do bebé de qualquer forma...
- A pessoa que teve a criança pode ter poucas condições financeiras ou já vários filhos para sustentar, e como maneira de conseguir alimentar mais uma boca, terá de dar tudo de si para trabalhar - isso pode conduzir a uma figura parental ausente ou distante, que nunca está com a criança e não acompanha o seu desenvolvimento, ou em que está demasiado esgotada para olhar pelo bebé nos poucos momentos em que consegue estar com ele. Isso normalmente custa tanto aos filhos como aos pais, e digo filhoS pois, se a pessoa que desejou abortar já tiver crianças, não só se estará a distanciar do recém-nascido para sustentar as crianças por quem é responsável, como se estará a distanciar das que já lá estavam.
- O bebé poderá crescer num ambiente em que é pouco amado, sofre de má-nutrição e em que tem acesso a uma educação elementar/pobre. Essa falta de apoios e condições não o matam, mas desencaminham muitos, e o antigo bebé que ainda não tinha sofrido acaba por crescer começando a roubar e a cometer crimes, enquanto vítima de um sistema que pouco o apoiou *. Aí no Brasil diz-se que "bandido bom é bandido morto", certo? Muitas das pessoas que o dizem são as tais pessoas pró-vida.
Acho irónico como muitos pró-vida não se tocam que não estão a salvar vida nenhuma, apenas a atrasar a hora da morte...
- Levar a gravidez até ao fim conduz a modificações corporais [www | www]: As pessoas devem ter autonomia sobre o próprio corpo e decidir se querem ou não passar pelas alterações que a gravidez força. Algumas são definitivas e o corpo não volta ao que era nem mesmo depois do parto. Por exemplo, o intestino fica mais lento e tende a acumular gases, os seios ficam um pouco diferentes e durante algum tempo jorram leite involuntariamente (quando se ouve crianças !que nem têm de ser o próprio filho! a chorar ou durante relações sexuais), o cabelo começa a cair, pés maiores (pelo menos com algumas pessoas), pele mais seca, quadris mais largos que não voltam a diminuir, etc...
- Conhecidos, e mesmo estranhos, irão questionar a pessoa grávida sobre o bebé que está para nascer: Vão perguntar se a pessoa/casal já pensou num nome, se sabe o género (Tenho de explicar porquê que detesto essa pergunta? Tenho mesmo de explicar porquê que assumir o género de alguém com base no seu sexo é um problema?)... Nem toda a gente consegue, numa altura dessas, dizer que pretende dar o bebé e deitar abaixo o entusiasmo das pessoas que notam a barriga a crescer. Abortando logo no começo, não só permite fugir dos questionamentos, como evita a indecisão da pessoa grávida.
- Depois de ter aguentado a gravidez e o parto, a pessoa poderá não ter coragem para dar o bebé: ...o que, lá está, comprometeria o futuro de quem tem poucas condições. A gravidez afeta as emoções e poderá causar um certo apego emocional ao bebé caso se leve a gravidez até ao fim, o que enfraquece a decisão de dar a criança (especialmente depois de a ver). É diferente não querer um monte de células inconscientes e por desenvolver de não querer uma criança que veio de si.
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Por fim, garanto que toda a gente conhece pelo menos alguém que já abortou, mesmo que não saiba. E que questionar a decisão dessas pessoas mostra que achamos que sabemos mais sobre a sua vida do que elas próprias, e vilaniza ou trata como assassinas quem na verdade fez/ainda faz o que pode para garantir a qualidade do maior número de vidas possível.
Jaa!








